Carregar a chama

Por Diego Moura

Momentos antes de morrer, o pai entrega um revólver a seu filho e diz: “você deve carregar a chama”. O filme é A estrada (The road, 2009), no qual em um mundo onde a humanidade sucumbiu poucas são as chances de sobreviver.

Pouco antes de dormir estava lembrando da película. Árida, seca, reflexiva. E é precisamente nesse contexto de aridez e desesperança que o pai delega ao filho essa missão derradeira: carregue a chama da humanidade, do amor, da esperança; deposita nos pequenos ombros do garoto um grande fardo: conserve ao menos uma fagulha de bondade neste coração.

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Todos os dias temos de carregar nós mesmos nossas próprias “chamas”. No caso de desenvolver uma tarefa ingrata ou que não satisfaz nossos desejos originais devemos manter a fagulha da esperança, sabendo aguardar – com toda a paciência necessária – a próxima lufada de vento bom, aquele sopro de ânimo que nos levará para onde desejamos. Já quando realizamos o tão desejado, antes sonho, é nosso dever transformar a centelha em fogueira e mantê-la viva, aquecendo a vida escolhida.

O mesmo para os amores. O importante é carregar a chama e cuidar, às vezes com malabarismo circense, para que as lágrimas não extingam a fogueira, e a fagulha, a centelha, a pequena brasa continuem dando sentido a tudo e a todos.

Mover a chama para cá e para lá desviando dos pingos teimosos, insistentes em mirar e minar o calor que emana do pedacinho pulsante de vida. Carregar a chama não é ser meramente um portador, mas afagar quando necessário, jogar mais lenha, remover as cinzas. Pensar e trabalhar para que o brilho seja forte e ilumine, sem penumbras ou cegueira, falta ou excesso; o calor conforte, sem queimaduras ou friagem; e o tato, primoroso, cheio de belezas e satisfação.

E se a chama for legítima – como era a que o pequeno do filme trazia consigo – aconteça o que acontecer, ela se manterá firme. E nossa existência será mais leve, porque teremos um bom motivo para carregar a chama: a possibilidade de dividi-la com aqueles que nos cercam.

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Não há borboleta alguma [parte 2]

Por Diego Moura

Desabou. O único aviso fora o trovão. A chuva grossa, que empapa roupas, ossos e alma, parecia que nunca mais ia acabar. Resolveu abrir o guarda-chuva. Revirou a bolsa com a agilidade que o mau tempo permitia e não achou. “Oras. Alguém deve ter tirado daqui de dentro.”

Praguejando até a última geração (que poderia ser de algum dos seus), desatou a correr com a jaqueta jeans na cabeça. Os fios castanhos desciam empapados até a altura de sua cintura mais ou menos bem feita. E as botas de cano alto traziam pés que chapinhavam sobre as palmilhas. Entrou no primeiro lugar que encontrou aberto.

Com as borboletas que trazia impressas na pele pingando, foi secar os pés no capacho marrom com as iniciais da loja. Inútil. A água grudou sua calça na pele, evidenciando pernas roliças e cheias de furinhos de celulite. Quando deu por si, estava sendo observada por um sujeito de braços peludos, uma garçonete novinha e um rapaz com meio pedaço de bolo sobre a mesa.

Ajeitou a jaqueta e foi procurar uma mesa mais longe do exame dos três. Ele a olhava com olhos de quem já a conhecia há muito tempo. A mocinha pareceu perceber, e uma sombra de reconhecimento passou pelo seu olhar. Foi tão imperceptível quanto o barulho que o anel de casca fez ao alcançar o fundo do bolso furado.

O hálito dele cheirava a juventude mentolada. O dela, a cigarro de cravos. Mas de onde se conheciam? Aparentemente tinham a mesma idade. Ou quase isso. Quem olhasse um e outro não colocaria na conta dele mais de seis anos de diferença em relação à mocinha. Mal conseguia ouvir seus pensamentos, tamanha chuva que chicoteava as janelas.

Inquieto, o sujeito empurrou a garfada final no bolo para baixo com o resto do café. Limpou os farelos da boca com as costas da mão e esfregou os dedos antes de arrastar ruidosamente a cadeira e levantar. Mancava levemente da perna esquerda.

Caminhou em direção à mesa da moça que, distraída com o cardápio, não percebeu a chegada arrastada do homem. Ele pigarreou.

– Pois não?

“Quem é esse rapaz, meu Deus? Sinto que eu conheço…mas de onde? Onde?”

– Posso me sentar?

Ela assentiu com um leve meneio de cabeça. Fazer o que, não? Quem era ela para impedi-lo? Sabe-se lá que tipo de intenção o tinha levado até sua mesa. O abafado do lugar secara parte de sua roupa, mas ainda estava ensopada.

– Você não lembra de mim?

O olhar dela denunciava a resposta. “Deveria lembrar?”

– Desculpe, mas não me lembro do senhor.

A ternura rondou os olhos azuis dele. Levantou discretamente, retirou o crucifixo de prata que trazia consigo e se dirigiu à parede em frente da porta de entrada do estabelecimento. Era véspera de ano novo. O local estava silencioso. Quer dizer, agora apenas a chuva tamborilava levemente nas janelas. Ali havia um empoeirado piano. Marrom. Sem caudas nem curvas. Não havia tampa que protegesse mais as teclas. “Tão nu e exposto quanto meu coração”, pensou. Não tinha banquinho. Pegou uma cadeira e arrastou para lá. Sempre mancando. Pediu licença àquele que aparentava ser o proprietário. O homem de braços peludos consentiu. Havia tantos anos ninguém sequer encostava no piano para limpá-lo.

Os dedos ágeis testaram uma tecla. Depois, outra. E outra. E outra. Com um leve rangido o bicho gemia. O piano já era um pequeno idoso musical. Deu uma olhadela para a moça, esboçou um sorriso. A alma dela doeu. A contração muscular do rosto dele mais parecia um espasmo de dor. Uma dor profunda, gritante, que padecia acorrentada no lugar mais escuro e inóspito, aonde só ondas de medo e espuma chegavam. Pôs-se a tocar.

{Fim da segunda parte}

 

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Não há borboleta alguma [parte 1]

Por Diego Moura

Convencera-se há muito de que não há borboleta alguma. E essa linha de raciocínio se confirmava com a única entidade voadora que atravessara a esquadria de alumínio: um moscão azul. Ou seria verde? “Esse suposto daltonismo continua aturdindo. Acho que vou colocar na minha lista para o ano que vem. Sim. Isso mesmo. Ir ao médico e checar o daltonismo.”

– Seu café. Bolinho de chuva não tem. Pode ser bolo de limão?

– Uhum.

Dois minutos depois a mocinha, no auge de seus vinte e poucos anos, trouxe um pires ligeiramente encardido com uma fatia miserável de bolo de limão. O verde das raspas sobre o mousse que cobria o pedaço lembrava a mosca que cruzara a janela e fora parar no balcão envernizado. O inseto não teve tempo de pensar em sua breve vida. Shilapt. Lá foi a mosquinha dormir para sempre embaixo do pano que o homenzinho atarracado carregava sobre o ombro.

As mangas arregaçadas da camisa, dobradas de forma displicente, davam um aspecto descuidado ao senhor de bigodes e farta pelugem no braço. Prosseguiu na sua tarefa de enxaguar e enxugar os copos, olhando para baixo, como se nada mais existisse ali além do enxágua – enxuga.

O temporal estava formando. Um vento, àquela altura incômodo, sacudia as persianas e ia ao encontro dos ventiladores de teto, sempre em velocidade reduzida. As lâmpadas ficavam mais fortes à medida que o céu mudava de cor: branco, cinza e chumbo. Certo trovão desavisado ribombou lá perto.

Passado o devaneio do daltonismo, acordou para a vida e foi adoçar o café. Rasgou duas embalagens e despejou sem dó o conteúdo dentro do líquido escuro. Mexeu e bebeu. Salgado. Fez sinal para a garçonete, mas, antes que ela visse, parou no meio. Percebera o erro. Em vez do pacotinho doce, abrira o de sal. Pensou no avô. Teria rido dele. “Você deve tomar o café sem açúcar para nunca esquecer de que a vida é amarga”, ensinara uma vez a sabedoria à criança de então.

– Que bela vida é essa que eu levo, não? Além de amarga, salgada.

{Fim da primeira parte}

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Princesa (sem ser da Disney)

Por Diego Moura

Perdeu a infância entre um pacote de balas e o meio fio. Os tênues anos escaparam de suas pequeninas e calosas mãos quando um retrovisor impaciente e consumido pela raiva diária que a cidade grande inspira bofeteou suas costelinhas magras e aparentes.

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(Foto: Diego Moura)

A blusa rosa com a estampa das princesas da Disney, rasgada na lateral, era fina demais. Ainda se fosse uma daquelas armaduras de príncipe, pensou enquanto caia. Nem príncipes e nem princesas, não conheceria nenhum deles.

Calçada tão dura quanto o coração de seu agressor desalmado, foi atingida pelo mercado onde expunha seus produtos. A cidade traiu sua confiança bem ali, onde sua mãe, quase uma criança, também exibia suas balinhas. Como a mãe de sua mãe já fizera, numa triste genealogia de lamentações.

Sonhava em ser feliz. Ter uma casinha para a mãe e a avó, de cama. Todas as esperanças depositadas sobre ombros que mal podiam carregar a mochila da irmã menor. Não, não. Aquilo não poderia acabar assim. Mas acabou.

O sujeito do carro preto? Esse nem viu o que fez. Ou preferiu não ver. Escolho pensar que ele não aguentaria olhar para os pequenos olhos redondos da princesa que jazia na calçada sem rasgar o próprio coração. Rogo a Deus que esse sujeito tenha uma filha e que nunca passe por um dor tão grande como aquela que a mãe enfrentou quando virou para trás à procura de sua pequena e deu com um cadáver.

Ninguém foi, ninguém viu.

Morreu três vezes: quando a mãe abraçou-se à pequena promessa de mulher, interrompida na calçada; no momento em que foi erguida como troféu nos sanguinários programas vespertinos; no dia seguinte, apresentada pelos jornais em uma nota lá no pé da página. Era exatamente o lugar reservado à criança e sua família. O pé de página social.

Morreu de vez o assunto.

[ficção que não é tão ficção assim…]

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Souza garante: “falta homem em Manaus”

Por Diego Moura

Calor. O mundo em Manaus se divide em dois: um dos suados e outro dos que ainda vão suar quando saírem do ar condicionado. Mormaço, quentura. Clima praieiro com um sério agravante: não venta. Parece que se está em constante banho-maria: um aquecimento lento, gradual e seguro.

Já era quase onze da noite quando caminhamos pelo Largo de São Sebastião em direção ao ponto de táxi. Minha namorada Laila, Kaline – quase jornalista como nós, hospedada no mesmo hotel – e eu chegamos até lá: nenhum veículo, apenas as linhas e letras de TÁXI recém-pintadas no chão. O cheiro da pintura recente misturava-se à quentura.

Eis que da esquina surge um táxi. Ficamos na dúvida se devemos entrar nele ou não. O carrinho branco, com os vidros completamente escuros, oculta quem quer que esteja á dentro. Hesitamos. O motorista, percebendo nosso receio, baixa o vidro do passageiro. Aparenta ser confiável.

Ar condicionado no máximo. Pedimos que nos leve ao hotel. Sujeito moreno, bigodinho preto, aparentando seus quarenta anos, Souza tem feições indígenas. A pele curtida pelo sol revela muitos anos vivendo naquele clima tropical.

A Constituição Brasileira de 1988 não prevê esta questão, mas o código do bom viver recomenda que o procedimento padrão ao entrar em um táxi seja o de iniciar uma conversa. Seja iniciativa do passageiro, seja do motorista, qualquer assunto vale (estudos apontam: 50% das conversas são iniciadas por taxistas e 50% pelos passageiros – há ainda outros 50% que fecham a cara ao entrar no carro e se negam a meio dedo de prosa que seja; esses ficam fora da nossa estatística).

Manaus, quentura, origens, São Paulo, Recife, trânsito, copa, semáforo, para-brisas rachados, tempo de profissão, outro semáforo.

– O que o senhor mais gosta em Manaus? – pergunta Kaline.

Incerteza. O homem parece não entender a pergunta. Esboça uma resposta qualquer.

– Ah, o povo…

Kaline, então, explica:

– Não, é que eu perguntei pra outro taxista, e ele me disse que o que ele mais gosta em Manaus é das mulheres.

Os olhinhos grandes e puxados do sujeito se contorcem numa gargalhada.

– Ah, isso é bem verdade. Aqui em Manaus cada homem tem mais de uma mulher, chega a ter cinco!

E, para nosso espanto, discorre acerca das relações de gênero na noite da capital amazonense. Barezinhos, festas, dança. Lá, segundo ele, tem muita mulher para pouco homem, por isso a opção pelos casados.

– O pouco que tem é tudo viado. Tudo carinha fortinho, academia e tal. Aí tá na balada com a mulher. Dança, vai, vai, vai…e na hora do vamo vê, o cara sai fora.

A cidade voa baixo, correndo pelas janelas fumês do sedã.

Laila manda a pergunta de um milhão de dólares:

– E o senhor, tem quantas mulheres?

– Eu, graças a Deus, tenho uma só. Vocês não me pegam não! – ri.

Para garantir uma saidinha, os homens de Manaus – essa massa ligeiramente escapista da qual Souza garante não fazer parte – não tem na falta de dinheiro um problema. A mulherada não só racha a conta, mas paga tudo, se for pra ter uma companhia masculina desmonetizada.

Com o taxímetro chegando aos vinte reais o celular do Souza toca. Ele fala baixinho, como se tivesse medo de que o guarda de trânsito – ou a gente – ouvisse sua infração.

– Oi, amor… Não, não. Tô com passageiro ainda… Isso… É que hoje tem show no Studio 5. É… Devo ir pra casa uma, duas horas, tá? Tchau.

Com um sorriso maroto, vira-se para trás:

– A patroa.

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Quando a rua é o rio

Por Diego Moura

Eu não sei o que é Brasil. Você, leitor ou leitora, que terá contato com as próximas linhas, provavelmente, também não sabe.

Não vou cuspir o clichê de que “esse Brasil não passa na TV”. Mentira. Ele passa, sim. Com uma série de filtros, maquiagens, torções e distorções, exotismo, oposição “nós” e “eles”. Esse “eles”, os outros, piores do que “nós”. Uma massa disforme, confusa e, acima de tudo, coitada. O homem-metrópole versus o ribeirinho. Faz-se uma oposição “melhor” e “pior”, quando, na verdade, são modos de vida diferentes, cada qual com seus problemas e seus fascínios.

Trata-se de enxergar os cidadãos inexistentes, invisíveis ou maquiados pelas “belezas amazônicas” dos programas ao melhor estilo Globo Repórter como eles merecem ser enxergados. Em outras palavras: colocá-los no papel com seus sonhos, dificuldades, vontades, esperanças, desesperanças, perspectivas, pensamentos, ações – e tentar colocar-se no lugar do outro. Uma coisa é você saber que existe; outra bem diferente é ver com os próprios olhos, dispensando as mediações da televisão ou de terceiros.

Pode ser um exercício fácil ou difícil, já que há duas opções. Ou você fica com os programas de televisão (sejam eles “informativos” ou de aventura) e corre o risco de achar que o “nativo” é exótico ou um coitado que senta e espera a vida passar, não opina, não tem voz. Ou você vai lá e conversa com alguns deles – escuta suas vozes pela primeira vez.

O “lá”, nesse caso, é o Rio Negro e suas adjacências. O “um deles” são ribeirinhos que moram em casa flutuantes. E nós fomos. De maneira involuntária, já que o casal com o qual fizemos um passeio de dia todo nos ofereceu algo além do turismo tradicional. Sidney e Sebastiana nos proporcionaram um tour pelo Brasil que não conhecemos. Falaram da vida ribeirinha. Da Copa do Mundo. Da comunidade.

Mal sabíamos que ao ocupar os assentos do barquinho Di Guedes III embarcaríamos numa viagem pelo Brasil ignorado pelo asfalto da Pauliceia.

Passa das quatro da tarde quando encostamos o barco na complexa construção de madeira feita para boiar. Depois de pegar chuva enquanto navegávamos, o tempo fechado dá certo alívio. Nosso comandante alertara momentos antes: “eu peguei esse desvio, porque lá na frente o temporal tá muito feio.” Dobrou um rio à direita como viramos em uma avenida para escapar do trânsito.

Nosso endereço fica bem na esquina de dois rios. Os moradores chamam um deles de Rua do Movimento e o outro de Rua do Sossego, por razões óbvias.

Pagamos cinco reais ao dono do lugar para realizarmos a “pesca” do pirarucu, maior peixe escamoso de água doce do mundo – seus quase 80 quilos, bem fritos, são deliciosos.

Sidney senta na cerquinha do flutuante, perto do barco que transporta as crianças pra escola. De óculos escuros, seu rosto aponta para um poste de uns 20 metros de altura com um risco de tinta branca. “Tá vendo aquela marca ali? Foi até onde chegou a enchente no ano passado… o pessoal perdeu muita coisa.”

Melancia, macaxeira, mandioca. Culturas somadas ao gado e ao turismo como fonte de renda das pessoas dali. Neste lugar, nas proximidades da capital do Amazonas, tudo é flutuante: escolas, mercearias. Até Jesus não apenas caminha como também mora sobre as águas. Seja católica ou evangélica, a fé se sustenta nas toras que mantêm de pé uma comunidade de 600 “votantes”.

A época é de o rio baixar. Aparecem ilhas, faixas de terra e a correnteza vira lago. Emerge até um campinho de futebol. Então, a partir de novembro, as águas voltam a subir. Às vezes com força, levando tudo pelo caminho. Igual no ano passado.

Se água demais é problema, a falta dela é ainda pior. Quase como nômades, a vizinhança de Sidney e sua esposa Sebastiana sai à procura de um lugar aguado para ancorar suas residências. Não podem deixar as madeiras do flutuante secarem. Só presta se tiver na água. Cada um tem seu lugar bem demarcado.

O antigo ancoradouro vira uma faixa de terra com alguns quilômetros, segregando quem mora mais longe. Essas pessoas precisam caminhar um bocado para chegar até os barcos.

“É um povo muito sofrido”, lança Sidney. Entretanto, isso não é motivo para que abandonem festividades e toda uma relação baseada fortemente na comunidade. Jogam futebol e fazem festas que se estendem até às cinco da manhã. A adesão é grande. Todo mundo ajuda todo mundo.

Pergunto a Sidney se ele quer morar em outro lugar. O não é categórico. Vai a Manaus para pagar as contas e trabalhar. E só. Apesar das dificuldades, aprecia o local tranquilo, onde pode estar em contato com a natureza 100% do tempo.

Sidney vai falando. Enquanto isso, passa uma criança de uns nove, quem sabe dez anos pilotando um barquinho a motor.

A despeito do lugar inóspito, todos têm energia elétrica. Segundo Sidney, cabos de alta tensão saem de Manaus por baixo do rio e chegam até lá. Depois, é só fazer a ramificação até as casas.

De serviço básico, a coleta de lixo (ou a falta dela) é estarrecedora. Pergunto a você: quantas vezes recolhem o lixo na sua casa? Três vezes por semana? Todos os dias? Bem, para o Sidney e a dona Sebastiana é todo o dia oito do mês, quando um barco da prefeitura vem até a casa deles. Sim. Uma vez por mês. Num barco.

Sidney relata que vizinhos impacientes arremessam seus sacos de lixo pela janela. Janela que dá para o rio.

“Ó lá. Falando nisso, olha lá.” Um saco de lixo vem boiando em direção ao flutuante.

Embalado pelas questões de infraestrutura, pergunto o que ele acha da Copa do Mundo lá em Manaus. Um taxista já havia dito, assombrado. “Moro em Manaus tem 24 anos. Nunca vi um prefeito trocar o asfalto da cidade toda em menos de oito meses.”

“A maquiagem de Manaus é muito bonita. Você chega perto do estádio tá tudo lindo, bem feito. Mas vai ver só como é que tá. Perto de Manaus tem um igarapé onde o povo joga lixo. Toda semana a prefeitura junto com o governo do Estado vão lá e limpam. Geralmente saem 300 toneladas de sujeira. Duas balsas cheinhas. Fica lindo. Aquela água marrom. Da cor de café de tão suja que tá.” E o povo continua a jogar lixo. “Aí ficam reclamando que o governo não limpa. Mas que adianta limpar se fica tudo sujo de novo?”.

Sidney fala que sofás e geladeiras são comuns entre os itens retirados do igarapé. Não, amigos e amigas, não estamos falando das enchentes na Capital, nas quais sofás, geladeiras e carcaças de automóveis já fazem parte do cotidiano de indignação. Falamos de um patrimônio da humanidade: a floresta amazônica.

Novamente, a bordo do Di Guedes III para a última parte do passeio.

Sebastiana aponta uns homens no rio, que trabalham cortando madeira. “Eles são ilegais ali. Toda semana vem um barquinho do IBAMA e não demora vai embora. Deve ser propina, né?”

Um pouco mais pra cima do rio, à direita, o casal nos indica o lugar onde moram. Um flutuante bege com as portas e as janelas pintadas de marrom. “Nós moramos aqui.” Sinto certo orgulho na voz de Sidney. Vizinhos, estão a mãe dele, o cunhado e dois sobrinhos. Os dois meninos mergulham e acenam nas águas do Rio Negro, perto do flutuante onde moram.

Sebastiana fica brava. “Já cansei de falar pra não deixarem as crianças ficarem assim na água”, diz. Com minha mente citadina imagino que a água é suja, e elas podem adoecer. Não. “Volta e meia aparece jacaré por aqui. Nunca teve nenhum acidente, mas é bom não facilitar, né? Lá perto de casa mesmo sempre tem um que aparece. Não pode cortar peixe ou alguma coisa assim que eles sentem o cheiro.”

Jacaré na porta de casa. Uma vida fascinantemente incompreensível para alguém nascido no asfalto.

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O dia em que virei Colombo

Por Diego Moura

[Há meses não publicava nada. Como estarei em Manaus na semana que vem, imerso nas belezas amazônicas, achei por bem escrever as linhas que se seguem]

Fazia sol. Entre nuvens, mas era sol. Havia optado por viajar no período da manhã, apesar dos avisos experientes de meu sábio avô, entendido das magias do trânsito e intérprete dos búzios de estradas e rodovias das terras paulistas:

– Você vai pegar trânsito. É feriadão… Se sair depois das oito, vai pegar trânsito ruim.

Desbravador que sou, ignorei o conselho e a sapiência que a idade traz.

Malas fechadas. Ok. Dinheiro na mão. Ok. Tanque cheio. Ok. Mapas impressos. Na mão. Eu me sentia o próprio Colombo. Só me faltava a bússola, é claro.

Sem a multidão característica de tais feitos históricos, com seus lencinhos brancos a acenar na beira do cais, subi a bordo e parti.

Liguei o possante às 8h15 da manhã. Sexta-feira. 7 de setembro de 2012.

Na cabeça, além do meu chapéu branco, de palhinha, já empoeirado e marcado pelas aventuras anteriores, levava também centenas (talvez milhares) de mensagens trocadas desde a partida, que ocorrera um mês antes.

Após encontro fortuito na fazenda Labareda (que você pode ler aqui), conversa longa num bar da belíssima Franca (terra famosa por seus calçados), muita confusão, alguns beijos e uma despedida de partir corações e mentes, lá ia eu.

Enquanto guiava o carro pela Pauliceia vazia, só pensava em dar prosseguimento àquele capítulo, inacabado.

– A gente vai se ver de novo?

– Claro que vai – eu garanti.

O que parecia apenas uma promessa para calar as lágrimas e a tristeza que vinham à tona concretizava-se ali, sobre os quatro pneus do Uninho vermelho. Mal podia acreditar.

Primeira vez que iria navegar por uma rodovia. Havia checado o trajeto pelo menos vinte vezes na noite anterior à partida. Como tenho pré-disposição genética para me perder e ir parar nos mais escabrosos lugares, resolvi me precaver.

Outra vez, meu mestre:

– Fique toda a vida à esquerda na Marginal Pinheiros e você cai na Castello Branco. Não tem erro.

A cada placa, sentia o cheiro da terra no interior.

Enfim, a rodovia.

Bom paulistano que se preza tem gravado na memória do rádio a Sul América trânsito. Porém, a rádio em véspera de feriado – e, convenhamos, nos outros dias também – serve simplesmente para confirmar o que já se sabe (e se quer ignorar): motorista, apegue-se com Jesus, porque você tá ferrado.

Infartada. São Paulo já estava com as artérias entupidas.

No limite da velocidade máxima permitida fiz a curva que me levaria à primeira das três rodovias rumo às terras desconhecidas.

Parei. Os milhões de infelizes saíram todos ao mesmo tempo de casa.

Naquele ritmo, eu já estava vendo: ia chegar a Capivari com os blocos de carnaval na rua.

Quase uma hora até o primeiro pedágio.

Boa música no rádio, o trânsito começou a fluir melhor. E logo os prédios e a cinzeira típica de São Paulo foram dando lugar ao verde.

80…90…110…120 km/h. Enfim, sentia a liberdade. Resolvi abrir as janelas. Aquele vento assustador, barulhento.

A música passou a ser um zumbido longe.

O vento foi cessando, até que parou de repente. Não, não foi nenhum fenômeno sobrenatural. Trânsito estacionado. De novo. Após uma escala no Graal do quilômetro 53, prossegui viagem.

Não havia muita necessidade de parar, além, é claro, de esticar as pernas. E comprar biscoitos de polvilho. Sou meio que tarado por eles. Na minha cabeça, apesar de transformarem o ambiente num verdadeiro saco de farinha, têm gosto de viagem.

Muitos “anda e para” depois chego à última rodovia.

Rodovia do Açúcar.

Rodovia perigosa, uma pista que vai e outra que vem. Grande circulação de treminhões carregados de cana de açúcar. Pra completar, quando eu estava colombiando, o Google Maps pintava o diabo no Street View: asfalto lamentável, cheio de buracos. Deveria estar preparado para o pior.

Não tinha uma nuvem. O sol brilhava forte, e o calor era de rachar mamona.

E a rodovia (felizmente recapeada no final de 2011, mostrando a desatualização do Google) não podia ter nome mais fiel: um monte de asfalto cercado de cana por todos os lados.

O interior virara mar. Um verde esmeralda, para onde se quer que olhasse, oscilava ao sabor do vento. Ali, parecia não haver tempo correndo.

Capivari 15km

Em breve chegaria a Capivari, distante 140 km de São Paulo. A viagem pareceu tomar ares cada vez mais místicos: “Quando você chegar, você vai ver um portal. Você pode esperar lá que eu e meu pai vamos de buscar”.

Três horas e meia depois de zarpar eu via o portal. Estacionei ao lado, numa estradinha de terra, perpendicular à construção. Próximo do canavial, um caminhão de comprimento assustador passou voando ao meu lado. Fui engolido por uma nuvem vermelha.

Quando achei que o psicodelismo da nuvem vermelha e do portal ia me transportar para outra dimensão, vi um carro preto se aproximando. Ele fez meia volta e estacionou atrás de mim.

Chegara o momento. A hora da verdade. O que eu ia dizer?

Vi que um homem descera do carro, pelo lado do motorista; do passageiro, saltara a razão de eu estar ali.

Desci do carro. Fui ao encontro dela.

Oi. Beijo. Abraço apertado.

Gestos que traduziam o pensamento de incredulidade: “achei que a gente nunca mais ia se ver”.

– Oi, tudo bem? Prazer, eu sou o pai da Laila.

Apertei a mão dele de volta retribuindo o gesto.

Fiquei vermelho. Talvez fosse apenas o sol. Ou não.

Ah, Colombo. Você não sabe de nada!

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