Fulaninha

Hoje, enquanto eu e meus pensamentos nos espremíamos no trem na volta pra casa, uma fulana entrou na minha cabeça e não saiu mais de lá. Ou melhor, uma fulaninha. Para evitar problemas domésticos, me explico.

Na minha frente, uma mulher tentava se equilibrar na locomotiva suada das seis e meia da tarde. Com uma das mãos segurava um celular, com a outra grudava na esgorreguenta barra metálica. Unhas bem feitas, esmalte clarinho, prezava por uma boa aparência. A saia longa, de estampas de floresta, ornava com uma blusa preta de alça, que lhe daria movimento, em outro contexto. A cabeleira artificialmente loira se esparramava até o meio das costas. Do seu rosto pude observar apenas que tinha quase nenhuma ruga no canto do olho direito e um nariz afilado. Parecia bem jovem, vamos deduzir uns 30 e poucos anos.

Ver mais do que isso seria desafiar a gravidade de uma lata de sardinhas em movimento. Como minha curiosidade tem requintes de impertinência, estiquei o pescoço e vi algo mais interessante. Mal guardava o celular, ela pegava o aparelho novamente. Conversava pelo Whatsapp. Captei que a senha de desbloqueio poderia ser 7433. O papo silencioso era com o Rafael, moço de barba bem feita e óculos escuros, simpático na foto do contato. Ela agendava uma carona com o rapaz.

– Você me pega antes do ponto?, teclou.

Guardou o celular. Dois segundos depois, pegou o telefone.

– vou tentar
Kkkkkk
depende do transito

– vai tentar o que?
Hoje voce sai comigo e não com aquela fulaninha.

Coitada da fulaninha! Cinco minutos me bastaram para saber mais do Rafael do que ela (namorada, esposa, amante?). De toda a forma, vim pensando no drama do qual ela provavelmente não sabe que faz parte. Desejei, do fundo do meu coração, que ela estivesse no Whatsapp combinando subir um belo par de chifres na cabeça do fulaninho naquele momento.

Anúncios

Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s