Organização critica desigualdade na futura vila dos atletas olímpicos

RioOnWatch classificou empreendimento que virará bairro ao fim dos jogos como “um novo modelo de exclusividade urbana e isolamento”

Por Diego Moura

Na sala escura, a voz de Fernanda Montenegro estronda enquanto na tela vão se desenhando paisagens típicas do Rio de Janeiro. As imagens exibem uma pujante Barra da Tijuca, em profunda transformação ao longo dos anos. No vídeo mostrado no estande de corretagem e em publicidades televisivas, a atriz global aluga sua voz às empresas Carvalho Hosken e Odebrecht, responsáveis por construir a Vila dos Atletas das Olimpíadas do Rio 2016. Após os Jogos, em agosto, no mês de março de 2017, o bairro Ilha Pura nascerá com 31 prédios que, somados, correspondem a 3.600 apartamentos. O mais barato dos primeiros lançamentos – os edifícios Dalí, Picasso, Miró e Gaudí – custa pouco mais de R$ 700 mil; o mais caro, quase 2 milhões. Mas nem todos poderão se beneficiar deles.

“Enquanto a Ilha Pura pode se gabar por operar com certo nível de sustentabilidade ambiental, há uma gritante desconsideração da sustentabilidade social da região”, acusa a publicação da organização não governamental RioOnWatch. O site produz conteúdo em inglês sobre as comunidades carentes do Rio de Janeiro, como uma vitrine para os problemas das favelas cariocas sob holofote do mundo devido aos Jogos Olímpicos.

Apesar de as empresas envolvidas no projeto afirmarem que “não houve e nem haverá desapropriação na Ilha Pura”, as comunidades temem pelo futuro. “Ao apresentar-se como um desenvolvimento da elite ligada ao legado olímpico da cidade, a Ilha Pura visa atrair compradores que desejam experimentar o ‘novo’ Rio que está sendo construído na área. Com isso, as comunidades de baixa renda próximas, como Vila Autódromo e Vila União de Curicica, estão sob ameaça de despejo”, argumenta a ONG.

O urbanista e arquiteto da FAU-UFRJ Pedro Jorgensen Jr, especializado em Políticas do Solo Urbano pelo Lincoln Institute of Land Policy, classifica as medidas urbanísticas adotadas no Rio de Janeiro, para as Olimpíadas de 2016, como projetos de “enclave” ou de exceção. “As Olimpíadas foram usadas para recolocar a Barra da Tijuca no centro das ações urbanísticas. Os enclaves são projetos que movem muito dinheiro, tanto na ponta de quem produz quanto na ponta de quem consome e têm interesses claros ou óbvios: imobiliário, internacional, seguradoras”, explica. “O plano urbanístico é um plano que não está escrito em lugar nenhum.”

Segundo ele, o fato de haver três linhas de BRT (ônibus rápidos que circulam em corredores exclusivos) e uma de metrô em direção à Barra da Tijuca visa atender apenas ao interesse de levar mão de obra da zona norte do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense para trabalhar no bairro de alto padrão. Enquanto isso, o centro fica estrangulado e a região do Porto Maravilha, que caracteriza uma operação urbana de revitalização, terá apenas um veículo leve sobre trilhos (VLT).

Sustentabilidade. O Ilha Pura é o primeiro empreendimento certificado pelo LEED-ND, cujo objetivo é “incentivar a transformação dos projetos, obra e operação das edificações, sempre com foco na sustentabilidade de suas atuações”. De 110 pontos, a obra recebeu 47, apenas sete acima do mínimo necessário para qualificação. Além disso, a avaliação da sustentabilidade não se restringe às características verdes do projeto, já que índices sociais também contam. O futuro bairro, porém, obteve zero com relação à inclusão de comunidades de rendas diversas e engajamento da comunidade.

O consórcio responsável pela execução da obra alega que, por ser um empreendimento privado, não está sujeito a pagamento de contrapartidas. Jorgensen critica esse fato. “No Rio de Janeiro nunca houve tradição em fazer essa cobrança. Essa possibilidade está prevista no Estatuto da Cidade”, afirma. Entretanto, de acordo com o documento, “a outorga onerosa do direito de construir consiste na possibilidade de o Município estabelecer relação entre a área edificável e a área do terreno, a partir da qual a autorização para construir passaria a ser concedida de forma onerosa”. O Estatuto não prevê cobranças por eventuais impactos da obra no entorno.

“Atualmente, a obra gera 7 mil empregos diretos e desenvolve o programa de qualificação profissional continuada Acreditar, que visa capacitar e proporcionar a jovens e adultos a oportunidade de emprego”, diz a Odebrecht, em nota. E a RioOnWatch lamenta: “Parece que as pessoas sendo removidas das favelas que cercam o condomínio só participarão deste espaço como a mão de obra de condomínios fechados como Ilha Pura”.

Matéria produzida como exercício para o 25o Curso Estado de Jornalismo a partir de viagem patrocinada pela Odebrecht para conhecer as obras olímpicas no Rio de Janeiro.

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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