O único mal irremediável

Por Diego Moura

A morte está sempre observando a todos. Fica num cantinho escuro, escondida, à espreita. Quando ela age nunca estamos preparados, por mais que assim pensemos.

É como nos diz o brilhante e recém-saído Ariano Suassuna através dos lábios de Chicó, em seu Auto da Compadecida:

Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre.

Tudo o que é vivo morre. Mais uma das tantas obviedades que nos cercam e só pesam quando a mão inabalável de Deus, do Destino, na Natureza (ou seja lá o que você acredite) desaba sobre nossas cabeças. Ou de cabeças próximas a nós. 

Se há algo de positivo nesse fim inevitável de todas as coisas vivas é o fato de lembrarmos da vida. O tempo corre. O tempo está contra nós. O relojoeiro Ademir, entrevistado no belíssimo documentário “Contra Tempos” [fim do post, vale muito assistir], produzido por algumas sensíveis colegas jornalistas, nos alerta:

– O ser humano nasce com o cronômetro regressivo, onde você aperta e ele vai regredindo. Quando zerar, acabou seu tempo. A gente tem uma sensação de “ah, parabéns pra você, mais um ano de vida”, mas não é. Na verdade, é um processo de menos um ano de vida. (…)IMG_2526 As pessoas existem, mas não vivem. 

Prepare-se, porque você lerá mais obviedades – mais ou menos óbvias com o sabor do tempo.

Temos que parar de negligenciar as pessoas e dar mais valor aos encontros presenciais, aos almoços em família, a qualquer reunião, por mais besta e simples que pareça.

Reduzir aquela briga, por uma razão que você já nem lembra mais, a nada.

Celebrar as presenças daqueles que amamos.

Seu Zé é o vô da Laila, minha namorada. Eu conheci o Seu Zé, mas não tão bem quanto seus familiares. Evidentemente, porque cheguei bem depois. Mas sei que era um homem forte, batalhador. Lutava todos os dias. Mas tem vezes que o cansaço chega sorrateiro, inevitável. Era uma alma sensível, dessas que choram ao ouvir uma música bem cantada e bem tocada na viola caipira.

Hoje Seu Zé descansou pela última vez. Sei que uma viola chora baixinho em algum lugar.

 

Anúncios

Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s