Encontro mágico com um pescador de esperanças

Por Diego Moura

Afundava os pés na areia macia e fria. Naquela praia nublada e quase deserta seus pensamentos corriam soltos, como os pequenos barcos de pesca que levantavam e baixavam ao sabor das ondas. Acabara de ter um encontro mágico com um pescador de camarões.

O homem baixinho, atarracado e cheio de músculos e tatuagens – produtos de tempos marítimos imemoriais – atracava o pequeno bote naquela mesma paragem, alguns quilômetros atrás, quando o sujeito pensativo se aproximou. Trocaram alguns dedos de prosa sobre temas supérfluos. Aquela mesma conversa protocolar de elevador, só que transferida para a beira mar.

Vendo que ameaçava garoar, o pescador convidou o andarilho para entrar na sua pequena barraca. Diante da recusa de seu interlocutor, viu que os pensamentos pareciam querer saltar dos miolos do sujeito e sair correndo pela praia. “O senhor me permite dar um conselho?” E, sem esperar pela resposta, prosseguiu. “Sabe, a gente tem que controlar os pensamentos da gente. Eles são tipo esse barco aqui”, bateu na lateral onde se lia Profeta do amanhecer. “A gente tem que deixar eles bem amarradinhos aqui, ó, na nossa cabeça. Só pode soltar eles se a gente tiver no controle. Se não, aí vira uma doideira só. Você vai, vai, vai e, quando se dá conta, tá só você e o barco, num mundaréu de água salgada: sem remo, sem rumo. Daí pra voltar é difícil. Mas se a gente desamarra com cuidado, empurra pra água e sabe pra onde tá indo, aí a pesca pode ser das boas. Mas se o senhor não sabe pra onde quer ir, até decidir, é melhor ficar em terra firme. Desculpa pela intromissão e pela ligeireza, mas eu tenho que descascar esse camarão todinho aqui. Dá licença”, completou e saiu em direção à cabana, puxando uma das pernas, ligeiramente coxo.

SONY DSCNão acreditava nessas coisas místicas, que seus parentes insistiam em apontar: cruzes, búzios, águas milagrosas. Tudo não passava de uma grande coincidência, pensava. Aquele homem e seu conselho apareceram ali por uma simples e pura coincidência de fatores. “Hora certa, lugar certo”, disse, tentando se convencer do contrário. Uma pequena ideia martelava sua cabeça. Notou uma tempestade vinda de suas ideias e tratou de amarrar bem os barcos, agitados pela marolinha que se intensificava.

O céu nublava mais. Estava chegando à ponta da praia. Dali em frente um rio desembocava no mar. Cruzando o rio, surgia densa mata cortada por uma trilha, imperceptível entre as pedras e folhagens verde-musgo. Já tinha perdido a conta das horas caminhadas até ali. Consultara os bolsos da bermuda e do moletom: saíra sem celular, sem relógio. Nu.

Optou por percorrer os últimos cem metros que separavam o lugar onde parara do rio. “Meia volta, e pra casa.” Quando se aproximou da areia molenga viu na água uma garrafa de tubaína, dessas que não fabricam mais hoje em dia. Pensou em pegá-la, mas a ideia de molhar a bermuda com o friozinho que começava a fazer no fim de tarde o arrepiou. Consumiu cinco minutos até o rio. Mais cinco para voltar ao ponto onde avistara a garrafa. Lá estava ela repousando fora da água. Aproximou-se devagar, agachou e, com um pulo, pegou o objeto e escapou de uma onda gelada que se formara de surpresa.

O vidro era translúcido, amarronzado não sabia se pelo tempo. Ergueu a garrafa e olhou atentamente para o vidro. O resto de luz da praia atravessou a garrafa, mas esbarrou em uma forma cuidadosamente enrolada.

Extraiu a rolha e puxou o papel. Amarrado com uma fita de cetim trazia um perfume adocicado, que cheirava a maresia.

Olá, minha amiga ou meu amigo desconhecida (o)

Eu quase desisti de escrever isso aqui, porque pensei (1) que ninguém ia ler (2) ou estava muito ruim. Enfim, decidi enfiar meia dúzia de palavras nessa garrafa e jogar por aí pra ver se alguém aproveita. Elas estavam crescidas e maduras, apanhei do topo, mas não tinha para quem presentear. Lá se foram elas. A gente sempre acha as palavras leves ou pesadas demais. Fiquei com medo de a garrafa afundar. Mas se você está lendo isso, acho que ela não afundou. Pois bem. Acordei pensando no passado. Frases e fatos que a gente pensa que estão lá no fundo, mortos, de repente voltam e assombram todos nós. Todos. Nós e os que estão perto de nós. Às vezes as borbulhas são tão grandes que ficam lá no fundo, inchando, inchando, até que emergem e fazem estragos, barulhos, cortam, machucam. Mas isso, geralmente, sara. Não se preocupe. Não importa o quão graves são as memórias que levantam de suas pretensas tumbas: elas são pequenas perto do amor de um pai, de uma mãe, de um irmão, de um amor.

Você já teve um aquário com muitos peixes? O que acontece quando muito tempo passa? A água fica turva, a bomba não dá mais conta de remover a sujeira. O vidro começa a ficar amarelado, cheio de grudes. Até que uma hora a sobrevivência ali é impossível. Se você sacudir as pedras do fundo, toda aquela sujeira acumulada vai sujar ainda mais a água. O aspecto fica lamentável. Aparentemente, a solução é jogar tudo fora e esquecer. Mas o aquário é tão bonito. Vida acontece ali dentro, oras! Então, você reúne todas as suas forças e limpa. Transfere os pequenos peixes para uma morada provisória, reflete um pouco e manda embora a água imunda e seus resquícios de sujeira. Esfrega bem as paredes, sua muito. Mas, enfim, bota água nova, volta os peixes e segue a vida, admirando aquele pequeno universo envidraçado, cheio de esperanças próprias.

Enquanto você achar que o esforço de esquecer a água suja vale a pena e tiver em mente que sua vida está integrada àquele pequeno universo, vital para você, essas borbulhas de passado vão incomodar vez ou outra. Depois, você percebe que não são nada além de grãos feitos para serem esquecidos. Não existe aquário 100% limpo 100% do tempo. O importante é não esquecer de sempre torná-lo limpo, cheio de possibilidades. Quanto menos tempo você levar para trocar os filtros da existência, menos você terá que esquecer. É assim. Mas isso é apenas a voz de uma garrafa anônima. Fique com Deus.

Lá longe, quase em alto mar, certo homem atarracado e cheio de tatuagens incompreensíveis lançava garrafas de tubaína ao mar. Enchia com esperanças e palavras de conforto que, esperava, não morressem à beira mar. Que fossem profetizados novos amanheceres. Todos os dias.

 

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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