A terrível sina dos homens e das mulheres-placa

Por Diego Moura

Imagine trabalhar das nove da manhã às cinco e meia da tarde, com uma hora de almoço e 15 minutos de café perto das quatro horas. E o detalhe: apenas nos finais de semana e perto de casa! Parece uma vaga dos sonhos, não? É, só parece.

E se eu te contar que você vai ganhar apenas quarenta reais por cada um dos dois dias de trabalho? E se o empregador disser que você tem que ficar em pé durante todo o “expediente”? Ah, e nem mencionei o local de trabalho: uma calçada qualquer na qual a árvore, esse luxo folhado, vem ou não de acordo com a Roda da Fortuna.

Esse é o modo de funcionamento de homens e mulheres-placa, aqueles que indicam os caminhos para empreendimentos imobiliários à venda. As construtoras pagam uma mixaria para que homens e mulheres desesperados por algum dinheiro (desempregados, aposentados ou quase) passem o dia sob sol escaldante segurando um letreiro simpático de áreas gourmet, suítes e nenhum senso de humanidade.

Até 2007, as corporações tinham, em geral, duas opções para divulgar seus apartamentos e casas nas ruas paulistanas. A primeira previa distribuição de panfletos nos semáforos com informações e endereços dos imóveis corretados; a segunda, a compra de outdoors, aqueles grandes painéis eletrônicos ou de madeira que contribuíam para o que alguns chamavam de “caos visual” na cidade.

Pois bem, Gilberto Kassab sancionou a Lei Cidade Limpa. Pela nova regra, ficaram banidos os grandes painéis e demais formas de publicidade em áreas públicas, e todo e qualquer letreiro comercial na Capital fica sujeito a especificações de tamanho que não podem passar de 1,5 m². Além disso, o acréscimo da nova lei aos quadros do município também proibiu a distribuição de panfletos publicitários.

Sem poder burlar a fiscalização dos letreiros, surgem algumas opções. A mais cara foi passar a distribuir, em lugar de panfletos, pseudojornais gratuitos. Em formato tabloide, são colocadas notícias sobre como é bom viver em determinado bairro e, plantados ali no meio, os anúncios. E a publicação vem como responsabilidade de um jornalista com MTb e tudo.

A outra opção encontrada vem diretamente da lei, que proíbe a colocação de anúncios em “ruas, parques, praças, postes, torres, viadutos, túneis, faixas acopladas à sinalização de trânsito, laterais de prédios sem janelas e topos de edifícios”, mas não fala nada sobre afixar placas em pessoas. Ideia genial. Mais econômico que jornais, panfletos e anúncios na TV.

E é aí que chegamos ao recifense Ivanildo, separado há 18 anos e morador de São Paulo há 41. “A gente não pode sentar, nem se escorar na parede, porque tem um fiscal que passa aí olhando”, conta o senhor cujas rugas denunciam uma idade superior aos seus quase 65 anos. “Tô aqui pra não ficar parado, sabe? Moro de favor aqui perto.” Sob o sol de 31ºC das dez e meia da manhã, não precisei forçar uma conversa. Suas palavras saíram em torrente, como se há muito quisesse desabafar sobre sua história, com um sotaque pernambucano firme levemente corroído pelos anos paulistanos. Homem e sotaque resistem.

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Seu Ivanildo

E há quanto tempo ele está na vida de homem placa? “Tem seis meses, mais ou menos, que eu venho aqui todo final de semana”, diz. E além da regra a qual proíbe sentar e, mesmo que por instantes, escorar-se na parede ocorre o problema da comida. “A gente que tem que trazer almoço e tudo. Eles não dão nada não.”

Com o rosto lavado de suor, seu Ivanildo explica que quer voltar ao ramo no qual trabalhou a vida toda: a reciclagem. “Se você trabalhar bem, fizer tudo certo, você tira limpo uns oito ou nove mil reais”, explica. Só não está “estabilizado”, porque fez uma sociedade com um parente baiano e levou uma rasteira feia. Com um leve ressentimento na voz, profetiza sobre o segmento. “A reciclagem é o futuro”, exclama. “As pessoas não veem, porque é lixo. É dinheiro que tá por aí jogado.” Nisso, mostra sua garrafa de Coca Cola cheia de água, descansando sob os galhos de um ipê amarelo. “Tá vendo isso aqui? – aponta para a tampinha vermelha – Isso é ‘pp’, eles compram! A garrafa PET também. O quilo deve estar um real. E você vai juntando: cata de segunda, terça, quinta, sábado…e por aí vai. Se você tiver alguém trabalhando sério com você, você faz muito dinheiro. E é tudo seu, sem descontar INSS, nem nada.”

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Os reflexos de uma vida toda voltada ao trabalho são parcialmente reconhecidos pelo Estado: labuta desde cedo, mas com registro em carteira de apenas 28 anos. Portanto, ainda tem um pequeno chão para a aposentadoria.

“Mas tudo se ajeita”, sentencia com fé. Exilado de sua paixão, o homem ainda precisará ficar de guarda por pelo menos mais seis horas naquele dia para receber miseravelmente por um amanhã cheio de incertezas. Porque é assim que funcionam as pontas da corda: enquanto os “homens-gravata” tudo recebem por seu “pioneirismo empreendedor, liberdade e vontade de trabalhar”, aos homens e mulheres placa é reservado o seguinte pensamento:

– Que comam brioches, oras. Os que trouxerem os seus, é claro. Não cheguei até aqui para sustentar desocupado.

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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4 respostas para A terrível sina dos homens e das mulheres-placa

  1. Laila disse:

    Que história boa de se ler. Seu Ivanildo merece tudo de bom! Tomara que consiga voltar ao ramo da reciclagem. 🙂 Parabéns pelo texto, amor!

  2. novais disse:

    Boa sorte pro Seu Ivanildo!
    Mas é interessante como até hoje a mentalidade de se esperar comida do patrão ainda está presente. Um escravo é alimentado, um funcionário escolhe onde se alimentar porque recebe um salário decente.

    • Disimo disse:

      Olá, Novais. A questão não é “ser alimentado pelo patrão”, mas ter condições minimamente dignas para exercer o trabalho – fixo ou temporário. Se os funcionários de empresas “ganham” vale-refeição, porque com o seu Ivanildo seria diferente? Um abraço e obrigado pela leitura!

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