O tempo e o resto

Por Diego Moura

Nós estamos matando nosso tempo. E queremos comprar mais! Temos a ilusão de que com alguns pedaços de papel pintado podemos adquirir bens e valores e mercadorias e…tempo. Foi com surpresa e interesse que esbarrei em uma pesquisa do Ibope Inteligência sobre a percepção do tempo pelo brasileiro (você pode lê-la completa aqui).

BRASILEIROS PAGARIAM R$50 POR UMA HORA A MAIS NO DIA.

Esse valor sobe para oitenta e cinco reais se for uma hora a mais em um dia de folga. Mudamos os calendários; as agendas deste ano já não servem mais. Nasce a esperança de que mais horas para todos reflitam em igualdade, serenidade, paz, possibilidade de crescer, sair do buraco.

E assim começaria a venda de horas. Bancos, agências de investimento e corretoras não tardariam a tomar esse filão para si. Seriam cobradas taxas pela hora – inteira, fracionada, mista, duas horas pelo preço de uma e meia. Os supermercados passariam a vender nos caixas cartões estilo “raspadinha”. Loterias sorteariam prêmios contabilizados nesta moeda paralela chamada tempo: o acertador das seis dezenas leva ‘x’ dias; cinco dezenas conquistam algumas horas; e a quadra, para não perdermos o costume, alguns minutos.

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Foto: Diego Moura

A moda de negociar com horas chegaria às grandes empresas. Já estou vendo os “líderes” galgando balcões – ou, mais provavelmente, designando um “colaborador” – para comprar algumas horas. Tudo pelo bem do time, da equipe; “temos de vestir a camisa, vocês sabem”; “as metas estão ali, esperando para serem batidas, por isso tomei a liberdade de comprar algumas horas a mais para os senhores”; “a organização comprou mais cinco conjuntos de sessenta minutos, ou seja, o dia de vocês agora tem 29 horas. Dessas, quatro são para o trabalho e uma para o lazer. O abatimento no holerite será baixo, em torno de 3%”. As Letras do Tesouro Nacional e também ações seriam negociadas com opções para horas. Uma taxa SELIC horária e, claro, uma inflação para as horas.

O ambiente acadêmico escolar teria seu quinhão. Alunos, em troca de mais tempo para entregar trabalhos, deslizariam malas pretas pelas mesas e salas de professores para comprar horas dos docentes. A universidade venderia (ou descontaria do ordenado) aos mestres retardatários mais horas em suas correções de provas e trabalhos; quem fizer mais rapidamente o serviço ganha bônus no fim do ano – em horas, claro.

Com os cidadãos optando por pagar os tributos em horas ou dinheiro, a Receita faria a festa. Gente caindo na malha fina por inconsistências em minutos, segundos. Tudo com recibo.

Um mercado sem escrúpulos, onde a hora viraria commodity. Minutos por minutos, sem valores agregados. Virão, enfim, as horas tipo exportação. O horário que não presta, insalubre, aquele que ninguém quer, ficará para o país; os melhores conjuntos serão exportados, servirão mesas europeias, chinesas. A hora do chá vale mais do que a hora do rush.

Haverá a hora de grife, com etiquetas douradas; essas horas servirão às passarelas de Milão. E não tardará o momento em que comprar e vender horas anteriormente inexistentes será pouco; corporações roubarão horas dos pobres. Uns terão dias de 48 horas, em que poderão jogar golfe e cultivar cédulas e dias na bolsa de valores com tranquilidade; outros terão dias com três, quatro horas. Terão de vendê-las a preço de minuto, barganhá-las, serão, na acepção do termo, escravos do relógio – e pelo relógio. Traficantes de horas; horas ilegais; multas cobradas pela Justiça serão em horas; as vaquinhas, também. Policiais são subornados com vales-hora. Profissionais do sexo, cuja hora vale hora, merecerão uma parte dos lucros.

A única igualdade que ainda reinava entre os seres humanos – dias de 24 horas para todos, independentemente de suas contas bancárias – se foi. E com ela um futuro que parecia esperançoso finalmente foi sepultado nas areias do tempo.

E o resto? Bem, o resto é resto.

Desculpe, mas o tempo me é escasso para mencioná-lo.

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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2 respostas para O tempo e o resto

  1. Muito bom! Lembrei do filme “O Preço do Amanhã”. Não que o filme seja excepcional (o protagonista é o Justin Timberlake, mas tem Olivia Wilde, olha só!) ou o enredo magnífico, mas a reflexão sobre o peso do tempo na nossa sociedade (atual ou futura) é bem interessante…

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