Não há borboleta alguma [parte 3]

[Caso não tenha lido, veja as partes um e dois aqui]

Por Diego Moura

As primeiras notas a atingiram em cheio. Seu peito ardeu com um fogo que queimara ali pela última vez em… Quando mesmo? Não lembrou. De repente as lembranças explodiram.

Tinha catorze anos. Estava de volta ao terreno baldio perto de sua casa. Sim, sim! Era isso. Estava ao lado de um menino ligeiramente mais velho. Os dois, deitados na grama, ouviam os trovões ao longe. Ignoravam tanto quanto o chamado de suas mães.

– Você jura que nunca vai me abandonar?

– Juro.

Ele abriu uma caixinha dessas que dão na joalheria e tirou um pequeno anel de casca de… Não recordava o material. O piano prosseguia mais alto, rápido e furioso. Cada pancada na tecla era uma martelada no passado.

Fora isso. Ganhara o anel e uma promessa de nunca separarem-se. À noite, o pai bêbado veio. Não suportou mais uma noite de gritaria, brigas e tanta tristeza. Na madrugada, fugiu de casa. A cabeça era só confusão. Uma gritaria de ofensas, injúrias, perjúrios, blasfêmias. A risada ébria do pai misturada aos insultos atirados contra a mãe. Deixou tudo para trás, inclusive o anel e sua promessa. Não queria nada da antiga vida. Nunca quis. E eis que aquele fantasma surge. Brota com a chuva e navegando pela música triste cobra as promessas feitas e não cumpridas. A vida que poderia ter sido. O sonho que não virou. O barco que nunca deixou o porto.

Sentiu o rosto queimar. Estava chorando. As lágrimas grossas corriam sua face e pingavam na toalha encardida. Uma pequena poça já de acumulava no branco de outrora. Ele estava enlouquecido. Espancava o piano com sua dor. Seu peito parecia que ia estourar. Não, não choraria. Não desta vez. Desde a separação chorava dia sim, noite sim. Os olhos fundos já tinham cansado. Seu coração agora era pedra e do desfiladeiro rolava sobre todos.

A chuva aumentara. Fazia um dueto esquizofrênico com o piano. Ela pensava em ir lá, explicar-se. Mas que diria ele? Jogaria em sua cara o abandono, tal qual fazia no piano. De súbito, a música parou. Apenas a água que escorria do céu fazia barulho. Respiração suspensa. Tempo suspenso. Tudo parou no ar.

Naquele momento, o coração da pobre moça, tão desventurada desde então, pulava. As batidas eram quase visíveis através do tecido semimolhado. Suas pernas não tinham força e mal conseguia erguer a cabeça para os lados do piano. Sentia-se como se houvesse cavado a terra com as próprias unhas para depositar o passado. Mas aquele fardo que lhe pesava era apenas o fantasma, um corpo insepulto. Não teve coragem de dizer palavra.

Após cinco minutos de silêncio e olhar firme na direção um do outro, ela levantou. Ele seguiu o exemplo. A moça decidira falar-lhe. Não teve tempo.

O homem sacou uma nota que cobria suas despesas no pequeno café e arremessou no balcão. Correu para a porta em disparada e agarrou uma valise oculta em baixo de sua mesa. Abriu a porta de supetão e caiu na rua, com água nos calcanhares. Correu e virou a primeira esquina na direção do aeroporto.

A moça tinha os olhos injetados de pânico. Pensou em correr atrás daquele que amara mais do que a própria vida no alto de seus quatorze anos. Mas com que propósito faria isso?

Olhou para a porta e viu um objeto que cintilava levemente em meio à poeira do chão. Foi até lá, abaixou-se e pegou o pequeno artefato redondo. Um anel de casca. Lágrimas gêmeas brotaram grossas e despencaram pelas maçãs pálidas de sua face. Deixou-se cair na cadeira. O homem do balcão que pareceu perceber alguma coisa muito estranha saiu de trás de seus afazeres e fo lá.

– Aconteceu alguma coisa entre a senhora e o padre?

– Padre?!

Seu choque não podia ser maior. A punição por seus atos foi saber que aquele com o qual conjugara planos e esperanças largara uma vida que poderia ter sido deles e se voltou completamente aos desígnios da Santa Igreja.

– Sim, padre – respondeu o dono do café sem demonstrar emoção. Ele parte hoje para um país que ignoro. Sei que é umas das missões eclesiásticas que o Vaticano conduz no continente africano.

O avião rugiu. As turbinas roncavam forte ao seu lado. Contemplava uma cidade vazia e chorosa pela força dos céus, quando uma borboleta apareceu na pequena janela redonda.

– Sim – alegrou-se por um instante e enxugando uma lágrima teimosa com o pequeno lenço bordado – sim, existem borboletas ainda. Resta saber procurar nos lugares certos.

{Fim da terceira e última parte} 

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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