Não há borboleta alguma [parte 2]

Por Diego Moura

Desabou. O único aviso fora o trovão. A chuva grossa, que empapa roupas, ossos e alma, parecia que nunca mais ia acabar. Resolveu abrir o guarda-chuva. Revirou a bolsa com a agilidade que o mau tempo permitia e não achou. “Oras. Alguém deve ter tirado daqui de dentro.”

Praguejando até a última geração (que poderia ser de algum dos seus), desatou a correr com a jaqueta jeans na cabeça. Os fios castanhos desciam empapados até a altura de sua cintura mais ou menos bem feita. E as botas de cano alto traziam pés que chapinhavam sobre as palmilhas. Entrou no primeiro lugar que encontrou aberto.

Com as borboletas que trazia impressas na pele pingando, foi secar os pés no capacho marrom com as iniciais da loja. Inútil. A água grudou sua calça na pele, evidenciando pernas roliças e cheias de furinhos de celulite. Quando deu por si, estava sendo observada por um sujeito de braços peludos, uma garçonete novinha e um rapaz com meio pedaço de bolo sobre a mesa.

Ajeitou a jaqueta e foi procurar uma mesa mais longe do exame dos três. Ele a olhava com olhos de quem já a conhecia há muito tempo. A mocinha pareceu perceber, e uma sombra de reconhecimento passou pelo seu olhar. Foi tão imperceptível quanto o barulho que o anel de casca fez ao alcançar o fundo do bolso furado.

O hálito dele cheirava a juventude mentolada. O dela, a cigarro de cravos. Mas de onde se conheciam? Aparentemente tinham a mesma idade. Ou quase isso. Quem olhasse um e outro não colocaria na conta dele mais de seis anos de diferença em relação à mocinha. Mal conseguia ouvir seus pensamentos, tamanha chuva que chicoteava as janelas.

Inquieto, o sujeito empurrou a garfada final no bolo para baixo com o resto do café. Limpou os farelos da boca com as costas da mão e esfregou os dedos antes de arrastar ruidosamente a cadeira e levantar. Mancava levemente da perna esquerda.

Caminhou em direção à mesa da moça que, distraída com o cardápio, não percebeu a chegada arrastada do homem. Ele pigarreou.

– Pois não?

“Quem é esse rapaz, meu Deus? Sinto que eu conheço…mas de onde? Onde?”

– Posso me sentar?

Ela assentiu com um leve meneio de cabeça. Fazer o que, não? Quem era ela para impedi-lo? Sabe-se lá que tipo de intenção o tinha levado até sua mesa. O abafado do lugar secara parte de sua roupa, mas ainda estava ensopada.

– Você não lembra de mim?

O olhar dela denunciava a resposta. “Deveria lembrar?”

– Desculpe, mas não me lembro do senhor.

A ternura rondou os olhos azuis dele. Levantou discretamente, retirou o crucifixo de prata que trazia consigo e se dirigiu à parede em frente da porta de entrada do estabelecimento. Era véspera de ano novo. O local estava silencioso. Quer dizer, agora apenas a chuva tamborilava levemente nas janelas. Ali havia um empoeirado piano. Marrom. Sem caudas nem curvas. Não havia tampa que protegesse mais as teclas. “Tão nu e exposto quanto meu coração”, pensou. Não tinha banquinho. Pegou uma cadeira e arrastou para lá. Sempre mancando. Pediu licença àquele que aparentava ser o proprietário. O homem de braços peludos consentiu. Havia tantos anos ninguém sequer encostava no piano para limpá-lo.

Os dedos ágeis testaram uma tecla. Depois, outra. E outra. E outra. Com um leve rangido o bicho gemia. O piano já era um pequeno idoso musical. Deu uma olhadela para a moça, esboçou um sorriso. A alma dela doeu. A contração muscular do rosto dele mais parecia um espasmo de dor. Uma dor profunda, gritante, que padecia acorrentada no lugar mais escuro e inóspito, aonde só ondas de medo e espuma chegavam. Pôs-se a tocar.

{Fim da segunda parte}

 

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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