Não há borboleta alguma [parte 1]

Por Diego Moura

Convencera-se há muito de que não há borboleta alguma. E essa linha de raciocínio se confirmava com a única entidade voadora que atravessara a esquadria de alumínio: um moscão azul. Ou seria verde? “Esse suposto daltonismo continua aturdindo. Acho que vou colocar na minha lista para o ano que vem. Sim. Isso mesmo. Ir ao médico e checar o daltonismo.”

– Seu café. Bolinho de chuva não tem. Pode ser bolo de limão?

– Uhum.

Dois minutos depois a mocinha, no auge de seus vinte e poucos anos, trouxe um pires ligeiramente encardido com uma fatia miserável de bolo de limão. O verde das raspas sobre o mousse que cobria o pedaço lembrava a mosca que cruzara a janela e fora parar no balcão envernizado. O inseto não teve tempo de pensar em sua breve vida. Shilapt. Lá foi a mosquinha dormir para sempre embaixo do pano que o homenzinho atarracado carregava sobre o ombro.

As mangas arregaçadas da camisa, dobradas de forma displicente, davam um aspecto descuidado ao senhor de bigodes e farta pelugem no braço. Prosseguiu na sua tarefa de enxaguar e enxugar os copos, olhando para baixo, como se nada mais existisse ali além do enxágua – enxuga.

O temporal estava formando. Um vento, àquela altura incômodo, sacudia as persianas e ia ao encontro dos ventiladores de teto, sempre em velocidade reduzida. As lâmpadas ficavam mais fortes à medida que o céu mudava de cor: branco, cinza e chumbo. Certo trovão desavisado ribombou lá perto.

Passado o devaneio do daltonismo, acordou para a vida e foi adoçar o café. Rasgou duas embalagens e despejou sem dó o conteúdo dentro do líquido escuro. Mexeu e bebeu. Salgado. Fez sinal para a garçonete, mas, antes que ela visse, parou no meio. Percebera o erro. Em vez do pacotinho doce, abrira o de sal. Pensou no avô. Teria rido dele. “Você deve tomar o café sem açúcar para nunca esquecer de que a vida é amarga”, ensinara uma vez a sabedoria à criança de então.

– Que bela vida é essa que eu levo, não? Além de amarga, salgada.

{Fim da primeira parte}

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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