Souza garante: “falta homem em Manaus”

Por Diego Moura

Calor. O mundo em Manaus se divide em dois: um dos suados e outro dos que ainda vão suar quando saírem do ar condicionado. Mormaço, quentura. Clima praieiro com um sério agravante: não venta. Parece que se está em constante banho-maria: um aquecimento lento, gradual e seguro.

Já era quase onze da noite quando caminhamos pelo Largo de São Sebastião em direção ao ponto de táxi. Minha namorada Laila, Kaline – quase jornalista como nós, hospedada no mesmo hotel – e eu chegamos até lá: nenhum veículo, apenas as linhas e letras de TÁXI recém-pintadas no chão. O cheiro da pintura recente misturava-se à quentura.

Eis que da esquina surge um táxi. Ficamos na dúvida se devemos entrar nele ou não. O carrinho branco, com os vidros completamente escuros, oculta quem quer que esteja á dentro. Hesitamos. O motorista, percebendo nosso receio, baixa o vidro do passageiro. Aparenta ser confiável.

Ar condicionado no máximo. Pedimos que nos leve ao hotel. Sujeito moreno, bigodinho preto, aparentando seus quarenta anos, Souza tem feições indígenas. A pele curtida pelo sol revela muitos anos vivendo naquele clima tropical.

A Constituição Brasileira de 1988 não prevê esta questão, mas o código do bom viver recomenda que o procedimento padrão ao entrar em um táxi seja o de iniciar uma conversa. Seja iniciativa do passageiro, seja do motorista, qualquer assunto vale (estudos apontam: 50% das conversas são iniciadas por taxistas e 50% pelos passageiros – há ainda outros 50% que fecham a cara ao entrar no carro e se negam a meio dedo de prosa que seja; esses ficam fora da nossa estatística).

Manaus, quentura, origens, São Paulo, Recife, trânsito, copa, semáforo, para-brisas rachados, tempo de profissão, outro semáforo.

– O que o senhor mais gosta em Manaus? – pergunta Kaline.

Incerteza. O homem parece não entender a pergunta. Esboça uma resposta qualquer.

– Ah, o povo…

Kaline, então, explica:

– Não, é que eu perguntei pra outro taxista, e ele me disse que o que ele mais gosta em Manaus é das mulheres.

Os olhinhos grandes e puxados do sujeito se contorcem numa gargalhada.

– Ah, isso é bem verdade. Aqui em Manaus cada homem tem mais de uma mulher, chega a ter cinco!

E, para nosso espanto, discorre acerca das relações de gênero na noite da capital amazonense. Barezinhos, festas, dança. Lá, segundo ele, tem muita mulher para pouco homem, por isso a opção pelos casados.

– O pouco que tem é tudo viado. Tudo carinha fortinho, academia e tal. Aí tá na balada com a mulher. Dança, vai, vai, vai…e na hora do vamo vê, o cara sai fora.

A cidade voa baixo, correndo pelas janelas fumês do sedã.

Laila manda a pergunta de um milhão de dólares:

– E o senhor, tem quantas mulheres?

– Eu, graças a Deus, tenho uma só. Vocês não me pegam não! – ri.

Para garantir uma saidinha, os homens de Manaus – essa massa ligeiramente escapista da qual Souza garante não fazer parte – não tem na falta de dinheiro um problema. A mulherada não só racha a conta, mas paga tudo, se for pra ter uma companhia masculina desmonetizada.

Com o taxímetro chegando aos vinte reais o celular do Souza toca. Ele fala baixinho, como se tivesse medo de que o guarda de trânsito – ou a gente – ouvisse sua infração.

– Oi, amor… Não, não. Tô com passageiro ainda… Isso… É que hoje tem show no Studio 5. É… Devo ir pra casa uma, duas horas, tá? Tchau.

Com um sorriso maroto, vira-se para trás:

– A patroa.

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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2 respostas para Souza garante: “falta homem em Manaus”

  1. Jo disse:

    Falou, falou, falou… E não disse nada.

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