Quando a rua é o rio

Por Diego Moura

Eu não sei o que é Brasil. Você, leitor ou leitora, que terá contato com as próximas linhas, provavelmente, também não sabe.

Não vou cuspir o clichê de que “esse Brasil não passa na TV”. Mentira. Ele passa, sim. Com uma série de filtros, maquiagens, torções e distorções, exotismo, oposição “nós” e “eles”. Esse “eles”, os outros, piores do que “nós”. Uma massa disforme, confusa e, acima de tudo, coitada. O homem-metrópole versus o ribeirinho. Faz-se uma oposição “melhor” e “pior”, quando, na verdade, são modos de vida diferentes, cada qual com seus problemas e seus fascínios.

Trata-se de enxergar os cidadãos inexistentes, invisíveis ou maquiados pelas “belezas amazônicas” dos programas ao melhor estilo Globo Repórter como eles merecem ser enxergados. Em outras palavras: colocá-los no papel com seus sonhos, dificuldades, vontades, esperanças, desesperanças, perspectivas, pensamentos, ações – e tentar colocar-se no lugar do outro. Uma coisa é você saber que existe; outra bem diferente é ver com os próprios olhos, dispensando as mediações da televisão ou de terceiros.

Pode ser um exercício fácil ou difícil, já que há duas opções. Ou você fica com os programas de televisão (sejam eles “informativos” ou de aventura) e corre o risco de achar que o “nativo” é exótico ou um coitado que senta e espera a vida passar, não opina, não tem voz. Ou você vai lá e conversa com alguns deles – escuta suas vozes pela primeira vez.

O “lá”, nesse caso, é o Rio Negro e suas adjacências. O “um deles” são ribeirinhos que moram em casa flutuantes. E nós fomos. De maneira involuntária, já que o casal com o qual fizemos um passeio de dia todo nos ofereceu algo além do turismo tradicional. Sidney e Sebastiana nos proporcionaram um tour pelo Brasil que não conhecemos. Falaram da vida ribeirinha. Da Copa do Mundo. Da comunidade.

Mal sabíamos que ao ocupar os assentos do barquinho Di Guedes III embarcaríamos numa viagem pelo Brasil ignorado pelo asfalto da Pauliceia.

Passa das quatro da tarde quando encostamos o barco na complexa construção de madeira feita para boiar. Depois de pegar chuva enquanto navegávamos, o tempo fechado dá certo alívio. Nosso comandante alertara momentos antes: “eu peguei esse desvio, porque lá na frente o temporal tá muito feio.” Dobrou um rio à direita como viramos em uma avenida para escapar do trânsito.

Nosso endereço fica bem na esquina de dois rios. Os moradores chamam um deles de Rua do Movimento e o outro de Rua do Sossego, por razões óbvias.

Pagamos cinco reais ao dono do lugar para realizarmos a “pesca” do pirarucu, maior peixe escamoso de água doce do mundo – seus quase 80 quilos, bem fritos, são deliciosos.

Sidney senta na cerquinha do flutuante, perto do barco que transporta as crianças pra escola. De óculos escuros, seu rosto aponta para um poste de uns 20 metros de altura com um risco de tinta branca. “Tá vendo aquela marca ali? Foi até onde chegou a enchente no ano passado… o pessoal perdeu muita coisa.”

Melancia, macaxeira, mandioca. Culturas somadas ao gado e ao turismo como fonte de renda das pessoas dali. Neste lugar, nas proximidades da capital do Amazonas, tudo é flutuante: escolas, mercearias. Até Jesus não apenas caminha como também mora sobre as águas. Seja católica ou evangélica, a fé se sustenta nas toras que mantêm de pé uma comunidade de 600 “votantes”.

A época é de o rio baixar. Aparecem ilhas, faixas de terra e a correnteza vira lago. Emerge até um campinho de futebol. Então, a partir de novembro, as águas voltam a subir. Às vezes com força, levando tudo pelo caminho. Igual no ano passado.

Se água demais é problema, a falta dela é ainda pior. Quase como nômades, a vizinhança de Sidney e sua esposa Sebastiana sai à procura de um lugar aguado para ancorar suas residências. Não podem deixar as madeiras do flutuante secarem. Só presta se tiver na água. Cada um tem seu lugar bem demarcado.

O antigo ancoradouro vira uma faixa de terra com alguns quilômetros, segregando quem mora mais longe. Essas pessoas precisam caminhar um bocado para chegar até os barcos.

“É um povo muito sofrido”, lança Sidney. Entretanto, isso não é motivo para que abandonem festividades e toda uma relação baseada fortemente na comunidade. Jogam futebol e fazem festas que se estendem até às cinco da manhã. A adesão é grande. Todo mundo ajuda todo mundo.

Pergunto a Sidney se ele quer morar em outro lugar. O não é categórico. Vai a Manaus para pagar as contas e trabalhar. E só. Apesar das dificuldades, aprecia o local tranquilo, onde pode estar em contato com a natureza 100% do tempo.

Sidney vai falando. Enquanto isso, passa uma criança de uns nove, quem sabe dez anos pilotando um barquinho a motor.

A despeito do lugar inóspito, todos têm energia elétrica. Segundo Sidney, cabos de alta tensão saem de Manaus por baixo do rio e chegam até lá. Depois, é só fazer a ramificação até as casas.

De serviço básico, a coleta de lixo (ou a falta dela) é estarrecedora. Pergunto a você: quantas vezes recolhem o lixo na sua casa? Três vezes por semana? Todos os dias? Bem, para o Sidney e a dona Sebastiana é todo o dia oito do mês, quando um barco da prefeitura vem até a casa deles. Sim. Uma vez por mês. Num barco.

Sidney relata que vizinhos impacientes arremessam seus sacos de lixo pela janela. Janela que dá para o rio.

“Ó lá. Falando nisso, olha lá.” Um saco de lixo vem boiando em direção ao flutuante.

Embalado pelas questões de infraestrutura, pergunto o que ele acha da Copa do Mundo lá em Manaus. Um taxista já havia dito, assombrado. “Moro em Manaus tem 24 anos. Nunca vi um prefeito trocar o asfalto da cidade toda em menos de oito meses.”

“A maquiagem de Manaus é muito bonita. Você chega perto do estádio tá tudo lindo, bem feito. Mas vai ver só como é que tá. Perto de Manaus tem um igarapé onde o povo joga lixo. Toda semana a prefeitura junto com o governo do Estado vão lá e limpam. Geralmente saem 300 toneladas de sujeira. Duas balsas cheinhas. Fica lindo. Aquela água marrom. Da cor de café de tão suja que tá.” E o povo continua a jogar lixo. “Aí ficam reclamando que o governo não limpa. Mas que adianta limpar se fica tudo sujo de novo?”.

Sidney fala que sofás e geladeiras são comuns entre os itens retirados do igarapé. Não, amigos e amigas, não estamos falando das enchentes na Capital, nas quais sofás, geladeiras e carcaças de automóveis já fazem parte do cotidiano de indignação. Falamos de um patrimônio da humanidade: a floresta amazônica.

Novamente, a bordo do Di Guedes III para a última parte do passeio.

Sebastiana aponta uns homens no rio, que trabalham cortando madeira. “Eles são ilegais ali. Toda semana vem um barquinho do IBAMA e não demora vai embora. Deve ser propina, né?”

Um pouco mais pra cima do rio, à direita, o casal nos indica o lugar onde moram. Um flutuante bege com as portas e as janelas pintadas de marrom. “Nós moramos aqui.” Sinto certo orgulho na voz de Sidney. Vizinhos, estão a mãe dele, o cunhado e dois sobrinhos. Os dois meninos mergulham e acenam nas águas do Rio Negro, perto do flutuante onde moram.

Sebastiana fica brava. “Já cansei de falar pra não deixarem as crianças ficarem assim na água”, diz. Com minha mente citadina imagino que a água é suja, e elas podem adoecer. Não. “Volta e meia aparece jacaré por aqui. Nunca teve nenhum acidente, mas é bom não facilitar, né? Lá perto de casa mesmo sempre tem um que aparece. Não pode cortar peixe ou alguma coisa assim que eles sentem o cheiro.”

Jacaré na porta de casa. Uma vida fascinantemente incompreensível para alguém nascido no asfalto.

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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4 respostas para Quando a rua é o rio

  1. Sonia disse:

    Texto fascinante!

  2. Thaísa Lima disse:

    Parabéns! Faz tempo que alguém “de fora” consegue a proeza de enxergar as particularidades dessa terra tão bem como você o fez; Que consegue transmitir tão bem as maravilhas que, desculpa a presunção, só existem aqui. Nem mesmo quem “é daqui” consegue ver tudo isso que você mostrou e isso é verdadeiramente uma pena.
    Thaísa, d’ aqui (Manaus).

    • Disimo disse:

      Oi, Thaísa. Obrigado pelo elogio e pela leitura. Fiquei realmente impressionado com a terra de vocês. Não precisa nem ir muito longe, não. Se aqui em São Paulo tivesse 10% de pessoas tão acolhedoras, receptivas, hospitaleiras e prestativas, nossa cidade estaria um milhão de vezes melhor. Sério. Com relação às belezas naturais, então, nem se fala. A gente só consegue mesmo entender de algo quando vai lá e vê, toca, participa. Como disse em outras oportunidades, pretendo voltar para explorar mais por aí.

      Um abraço, e seja sempre bem-vinda! 🙂

  3. Excelente texto, meu camarada! Quando as pessoas de fora do Amazonas visitam Manaus, acham que vão encontrar onças andando na rua e cipós como transporte público. Mas você conseguiu dar uma descrição perfeita da sua visita a esta cidade. Meus parabéns!

    Lucas Vítor, manauara 😀

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