O dia em que virei Colombo

Por Diego Moura

[Há meses não publicava nada. Como estarei em Manaus na semana que vem, imerso nas belezas amazônicas, achei por bem escrever as linhas que se seguem]

Fazia sol. Entre nuvens, mas era sol. Havia optado por viajar no período da manhã, apesar dos avisos experientes de meu sábio avô, entendido das magias do trânsito e intérprete dos búzios de estradas e rodovias das terras paulistas:

– Você vai pegar trânsito. É feriadão… Se sair depois das oito, vai pegar trânsito ruim.

Desbravador que sou, ignorei o conselho e a sapiência que a idade traz.

Malas fechadas. Ok. Dinheiro na mão. Ok. Tanque cheio. Ok. Mapas impressos. Na mão. Eu me sentia o próprio Colombo. Só me faltava a bússola, é claro.

Sem a multidão característica de tais feitos históricos, com seus lencinhos brancos a acenar na beira do cais, subi a bordo e parti.

Liguei o possante às 8h15 da manhã. Sexta-feira. 7 de setembro de 2012.

Na cabeça, além do meu chapéu branco, de palhinha, já empoeirado e marcado pelas aventuras anteriores, levava também centenas (talvez milhares) de mensagens trocadas desde a partida, que ocorrera um mês antes.

Após encontro fortuito na fazenda Labareda (que você pode ler aqui), conversa longa num bar da belíssima Franca (terra famosa por seus calçados), muita confusão, alguns beijos e uma despedida de partir corações e mentes, lá ia eu.

Enquanto guiava o carro pela Pauliceia vazia, só pensava em dar prosseguimento àquele capítulo, inacabado.

– A gente vai se ver de novo?

– Claro que vai – eu garanti.

O que parecia apenas uma promessa para calar as lágrimas e a tristeza que vinham à tona concretizava-se ali, sobre os quatro pneus do Uninho vermelho. Mal podia acreditar.

Primeira vez que iria navegar por uma rodovia. Havia checado o trajeto pelo menos vinte vezes na noite anterior à partida. Como tenho pré-disposição genética para me perder e ir parar nos mais escabrosos lugares, resolvi me precaver.

Outra vez, meu mestre:

– Fique toda a vida à esquerda na Marginal Pinheiros e você cai na Castello Branco. Não tem erro.

A cada placa, sentia o cheiro da terra no interior.

Enfim, a rodovia.

Bom paulistano que se preza tem gravado na memória do rádio a Sul América trânsito. Porém, a rádio em véspera de feriado – e, convenhamos, nos outros dias também – serve simplesmente para confirmar o que já se sabe (e se quer ignorar): motorista, apegue-se com Jesus, porque você tá ferrado.

Infartada. São Paulo já estava com as artérias entupidas.

No limite da velocidade máxima permitida fiz a curva que me levaria à primeira das três rodovias rumo às terras desconhecidas.

Parei. Os milhões de infelizes saíram todos ao mesmo tempo de casa.

Naquele ritmo, eu já estava vendo: ia chegar a Capivari com os blocos de carnaval na rua.

Quase uma hora até o primeiro pedágio.

Boa música no rádio, o trânsito começou a fluir melhor. E logo os prédios e a cinzeira típica de São Paulo foram dando lugar ao verde.

80…90…110…120 km/h. Enfim, sentia a liberdade. Resolvi abrir as janelas. Aquele vento assustador, barulhento.

A música passou a ser um zumbido longe.

O vento foi cessando, até que parou de repente. Não, não foi nenhum fenômeno sobrenatural. Trânsito estacionado. De novo. Após uma escala no Graal do quilômetro 53, prossegui viagem.

Não havia muita necessidade de parar, além, é claro, de esticar as pernas. E comprar biscoitos de polvilho. Sou meio que tarado por eles. Na minha cabeça, apesar de transformarem o ambiente num verdadeiro saco de farinha, têm gosto de viagem.

Muitos “anda e para” depois chego à última rodovia.

Rodovia do Açúcar.

Rodovia perigosa, uma pista que vai e outra que vem. Grande circulação de treminhões carregados de cana de açúcar. Pra completar, quando eu estava colombiando, o Google Maps pintava o diabo no Street View: asfalto lamentável, cheio de buracos. Deveria estar preparado para o pior.

Não tinha uma nuvem. O sol brilhava forte, e o calor era de rachar mamona.

E a rodovia (felizmente recapeada no final de 2011, mostrando a desatualização do Google) não podia ter nome mais fiel: um monte de asfalto cercado de cana por todos os lados.

O interior virara mar. Um verde esmeralda, para onde se quer que olhasse, oscilava ao sabor do vento. Ali, parecia não haver tempo correndo.

Capivari 15km

Em breve chegaria a Capivari, distante 140 km de São Paulo. A viagem pareceu tomar ares cada vez mais místicos: “Quando você chegar, você vai ver um portal. Você pode esperar lá que eu e meu pai vamos de buscar”.

Três horas e meia depois de zarpar eu via o portal. Estacionei ao lado, numa estradinha de terra, perpendicular à construção. Próximo do canavial, um caminhão de comprimento assustador passou voando ao meu lado. Fui engolido por uma nuvem vermelha.

Quando achei que o psicodelismo da nuvem vermelha e do portal ia me transportar para outra dimensão, vi um carro preto se aproximando. Ele fez meia volta e estacionou atrás de mim.

Chegara o momento. A hora da verdade. O que eu ia dizer?

Vi que um homem descera do carro, pelo lado do motorista; do passageiro, saltara a razão de eu estar ali.

Desci do carro. Fui ao encontro dela.

Oi. Beijo. Abraço apertado.

Gestos que traduziam o pensamento de incredulidade: “achei que a gente nunca mais ia se ver”.

– Oi, tudo bem? Prazer, eu sou o pai da Laila.

Apertei a mão dele de volta retribuindo o gesto.

Fiquei vermelho. Talvez fosse apenas o sol. Ou não.

Ah, Colombo. Você não sabe de nada!

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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Uma resposta para O dia em que virei Colombo

  1. Belo texto, você está se tornando um ótimo contador de histórias… Não esqueça de fazer umas pequenas revisões…

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