Fome emocional

Diego Moura

Conheça as vítimas da compulsão alimentar e os tratamentos, muitas vezes, alternativos, para amenizar a doença

A reunião começa com uma oração. “Concedei-me, Senhor, a serenidade necessária, para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras.”

Os quatro participantes, com suas mãos erguidas, estão unidos pelo pensamento. As palavras ditas ali por Adriana são profundas e tocam a todos. Na oração da serenidade, pedem por força de vontade, iluminação a uma força superior para vencer, dia após dia, a vontade incontrolável que têm de comer.

Esta é uma reunião dos “comedores compulsivos anônimos” (CCA). Uma espécie de programa de alcoólicos anônimos para os que têm “surtos” de comer sem limites. Não bastasse a especificidade da enfermidade, esse encontro, que ocorre todas as segundas e quartas-feiras, das 22h00 às 23h00, é online. As mãos são erguidas ao apertar o botão “raise”. Ao pressioná-lo, no programa de conferências online PalTalk, um ícone aparece ao lado do nome do participante que está querendo falar, responder algo ou, simplesmente, conectar-se aos outros no momento da oração. O grupo é autofinanciado, e não são aceitas doações externas aos membros.

Não são exigidos nomes, rostos ou qualquer identificação formal. Basta ter um apelido e entrar na sala. A partir daí, os comedores compulsivos desabafam, trocam experiências e buscam algum conforto nesse male que afeta em torno de 4% da população geral, segundo a Sociedade Americana de Psiquiatria. O consumo exagerado de quilocalorias (que às vezes pode chegar às assustadoras 15 mil) leva à obesidade de cerca de ¾ dos compulsivos.

O transtorno compulsivo alimentar periódico (TCAP), ou compulsão alimentar, de acordo com o psiquiatra e pesquisador Alexandre Azevedo, do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (AMBULIM) caracteriza-se pela “ingestão de grande quantidade de alimentos em um período de tempo delimitado – até duas horas – acompanhado da sensação de perda de controle sobre o quê ou o quanto se come. Para caracterizar o diagnóstico, esses episódios devem ocorrer pelo menos dois dias por semana nos últimos seis meses, associados a algumas características de perda de controle e não acompanhados de comportamentos compensatórios dirigidos para a perda de peso”.

—-

Por meio do que o CCA chama de doze tradições, as pessoas com compulsão alimentar buscam uma alternativa a seu transtorno. Em cada reunião, é lida uma ou duas das “diretrizes”, ou passos, para ajudar a vencer a doença.

Tive a oportunidade de participar do encontro em que foram lidas a sexta e a sétima tradições, sobre o papel de um comedor compulsivo com relação ao grupo e ao autofinanciamento. “Membros não familiarizados com as tradições têm usado nossas listas de telefones para vendas. Somos convidados a nos filiarmos desde spas até restaurantes e igrejas”, lê Adriana, participante desde 1998. “Nosso objetivo é levar a mensagem a quem está sofrendo, morrendo pelo comer compulsivo.” Adriana deixa claro que “assuntos de fora: revista, remédio, médico, livro, não nos interessa aqui.” Isso porque ela já havia tentado de tudo: dietas, remédios, médicos e até simpatias para vencer o comer compulsivo. Mas nada resolveu. Até então.

Ao entrar na reunião, identifico-me como estudante que está realizando uma matéria sobre compulsão alimentar. Adriana, que coordena o encontro, oferece a possibilidade de participar, mas adverte que o momento não será tão pessoal, já que “é um espaço de comedores compulsivos para comedores compulsivos”. Entretanto, se todos os participantes votarem a favor de abrir a reunião, posso acompanhá-los e conhecer um pouco melhor as agruras e os progressos no tratamento de quem sofre pela compulsão alimentar. Por unanimidade, o encontro é declarado aberto.

Fortaleza é a primeira a falar. Apesar de o grupo ser originalmente do Rio de Janeiro, a mulher aparenta ter sotaque de algum estado da região nordeste. É difícil estimar sua idade, mas sua voz aparenta ser clara, jovem e profunda. Está em recuperação no programa desde 2011. “Conheci o CCA por meio da internet, mas no começo não acreditei e continuei a achar que não tinha solução ‘pro’ meu problema. Eu realmente cheguei no fundo do poço. Eram dias e dias comendo de forma absurda. Acordava com o firme propósito de fazer uma dieta, me privar de alguns alimentos que me levavam à compulsão. Mas à noite eu constatava minha total incapacidade frente à comida.”

Ao finalizar sua fala, Adriana prossegue e pergunta se mais alguém gostaria de “compartilhar”. Alexia, carioca e pela primeira vez na sala, toma a palavra.

“É muito difícil essa situação de ser comedora compulsiva, porque a gente se sente impotente e, como a Adriana ‘tava’ falando no início, que é o mesmo lema dos alcoólicos anônimos, mas o álcool você não dá o primeiro gole e aí você consegue ficar longe daquele vício. A comida, não. A gente ‘tá’ próximo dela, a gente depende dela ‘pra’ viver. A gente acorda com aquele propósito [de não comer tanto] e quando percebe foi tudo pelos ares, a gente perdeu ‘pra’ gente mesmo”, conta. “Já fui a vários médicos, fiz várias dietas, já fui a psicólogo, grupos de emagrecimento. Só que tudo na cabeça das pessoas parece muito fácil, mera força de vontade. O alimento causa em mim, chega a dar uma fisgada no pescoço, é uma coisa física, que eu não sei explicar direito.”

Além das reuniões online e presenciais, o grupo se baseia em doze passos para vencer a compulsão pela comida. Estes foram adaptados dos grupos de alcoólicos anônimos. O CCA conta também com a revista Lifeline que é, nas palavras de Adriana, uma “reunião de bolso”.

A mulher que coordena o grupo e cujas filhas nasceram ao longo de seus anos à frente do CCA, que deu seu depoimento ao final, relata seu percurso. “Cheguei muito mal, muito obesa. Então, mal fisicamente, emocionalmente também. Triste, chorava, agressiva. E mal espiritualmente. Apesar de o programa não ser religioso é espiritual. Hoje, estou melhor, mas ainda assim à noite ‘pra’ mim é muito difícil. Tem vários alimentos que eu não coloco na minha boca. Não tem cura, eu tenho que deter a minha doença dia após dia. E tem alimentos que eu não posso chegar perto.” Antes dependente de anfetaminas, segundo ela, hoje, graças ao “poder superior” está livre da substância.

Cerca de 7.700 quilômetros distante de Adriana, Fortaleza e Alexia, o médico de origem chinesa Gene Jack Wang pesquisa há cerca de vinte anos a obesidade e como o processo de compulsão alimentar pode levar a ela.

No Brookheaven National Laboratory (BNL), em Nova Iorque, Wang é especializado em medicina nuclear, e usa, em seus estudos, a técnica de Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET) para descobrir mais sobre doenças do cérebro.

“Entrei no BNL em 1990, quando eu terminei a formação da especialidade, e trabalhei com a Dra. Nora Volkow em pesquisa sobre abuso de drogas. Comecei interessado ​​no comportamento compulsivo em indivíduos obesos no final dos anos 1990. Encontramos obesos mórbidos que tinham menos receptores de dopamina D2, o que foi semelhante à de sujeitos viciados em drogas.”

A dopamina é um neurotransmissor relacionado à motivação, à recompensa e ao prazer. Por conta disso, tem sido investigada em sua relação com vícios (por exemplo, drogas, álcool). É também um neurotransmissor ligado a comportamentos alimentares. Os estudos de Dr. Wang em pareceria com a Dra. Volkow demonstraram que pessoas que comem demais alimentos palatáveis tendem a ter o sistema de dopamina mais baixo do que o normal (consequentemente menos sensíveis ao prazer proporcionado pela alimentação, precisam comer mais para alcançarem a sensação de satisfação). No entanto, outros estudos demonstram que diversos neurotransmissores também estão envolvidos na dependência de alimentos processados.

No CCA, Adriana diz que grande parte dos casos relatados traz a compulsão por alimentos que têm farinha, açúcar e gordura em sua composição. Isso parece ser confirmado pela pesquisa de Wang, que demonstra, tanto em humanos quanto em animais, que o comportamento compulsivo alimentar está relacionado a processos de vícios em drogas, como o álcool. “Na verdade, alguns dos ingredientes alimentares (como o açúcar) podem induzir o comportamento alimentar viciante. No entanto, o açúcar demais pode não induzir obesidade. Combinação de excesso de açúcar e gordura, por sua vez, poderia levar ao aumento exagerado de peso. A maioria dos alimentos palatáveis ​​têm combinação de doce, carboidrato e gordura”, completa.

Sally Marlow, pesquisadora de vício do King’s College London, também considera que alguns processos do comer compulsivo podem ser chamados de vício: “o desejo, usar a substância mesmo sabendo que lhe causará dano, tentar e não conseguir reduzir, parar e começar de novo. Depois, há o sigilo, a negação, escondendo isso de pessoas que você ama”, diz.

Por outro lado, aponta diferenças. “No vício em álcool, há uma síndrome de abstinência física – se o sujeito é viciado em álcool e parar de beber vai ficar muito doente por algumas semanas. Este não é o caso na dependência alimentar.”

E muita gente está interessada no assunto. Como a obesidade é um problema e desafio global, as pesquisas sobre isso e outros comportamentos alimentares anormais atrairam muita atenção da mídia na última década. “Além dos nossos, muitos estudos com animais por outros pesquisadores mostraram que o consumo excessivo de alimentos palatáveis ​​- doce mais gordura – é induzido por comportamentos compulsivos. Muitos veículos de mídia dos EUA têm coberto estas pesquisas”, relata-nos Dr. Wang.

Além do CCA, há também no Facebook grupos de apoio e ajuda a pessoas que são diagnosticadas do TCAP (ou simplesmente tentando perder peso). Em um desses grupos, chamado Vencendo a Compulsão, quase mil membros postam informações sobre suas dietas, progressos e recaídas com relação aos hábitos alimentares.

Lá dentro, encontrei Gisele que, apesar de revelar seus sobrenomes dentro dos muros do grupo, pede para ser identificada apenas por seu prenome. Ela foi diagnosticada como compulsiva em 2009. “Entrei no site dos Comedores Compulsivos Anônimos e respondi às perguntas para saber se eu era compulsiva, depois eu conversei com meu psiquiatra, já fazia tratamento para transtorno bipolar, então já passava em psiquiatra, e ele me confirmou”, conta.

Chegou a tomar um remédio bastante difundido para a compulsão alimentar, mas, como a deixava sonolenta, parou. “As coisas chegavam a cair da minha mão, de tão grogue que eu ficava.” Sua psiquiatra recente receitou diazepam, para diminuir a ansiedade. Também não prosseguiu com o tratamento com medo de se tornar dependente do medicamento.

“Hoje em dia eu tento levar os problemas menos a sério. Um fator que me preocupava e me atrapalhava muito era estar, tanto eu como meu namorado, desempregados. Mas agora ele tá trabalhando e eu me sinto mais tranquila, para procurar um emprego na área que eu quero. Essa semana, consegui começar a me alimentar melhor, consegui cortar o açúcar, pelo menos ontem eu consegui não comer depois da janta. ‘Tô’ conseguindo comer menos e melhor. Antes quando eu ia na terapia tinha um MC Donald’s perto eu comia dois lanches e uma sobremesa, até hoje não acredito, comia um panetone de uma vez”, diz.

Relacionar formalmente a compulsão alimentar ao vício abre fronteiras importantes para tratamentos específicos e que possam atingir a raiz do problema. Ainda de acordo com Marlow, “pode haver tratamentos em outros vícios que podemos usar para o vício em comida. Além disso, pode também haver tratamentos para a obesidade, que são farmacológicos e psicológicos”.

O Dr. Gene Jack Wang vai além. De acordo com ele, o tratamento para o vício deve ser abrangente, seja para a droga ou para a comida. “Quanto à comida, as pessoas devem comer alimentos naturais tanto quanto for possível. Ingerir mais alimentos processados aumenta o risco do vício em comida. Esses alimentos ​​geralmente têm maior quantidade de carboidratos simples e gordura, e menos fibra. O açúcar e a gordura são mais facilmente absorvidos pelo corpo e chegam ao centro de recompensa do cérebro mais rapidamente.” E modificações de estilo de vida, com diminuição do estresse e aumento da quantidade de exercício físico praticado também são importantes. Diminuir o estresse diminuiria a necessidade do uso de alimentos para modular o humor e a emoção. O exercício aeróbico ajuda a aliviar o estresse e melhora o controle de inibição no comportamento alimentar inadequado.

Marlow considera que os estudos devem começar a ouvir o que os próprios pacientes dizem. Talvez o CCA possa ser um embrião para entender melhor o problema da compulsão alimentar e ajudar a amenizá-lo e, quem sabe, resolvê-lo. “Quando os pacientes descrevem a si mesmos, alguns dizem sentem como um vício. Se dermos ouvidos a eles, podemos fazer melhores estudos de investigação, e descobrir mais sobre o que está acontecendo.”

Gisele mudou. Segundo ela, “mudou por dentro, mudou para mim, eu estou me sentindo mais confiante, estou conseguindo ir em entrevistas de emprego. Não conseguia antes, era uma pessoa insegura. Me sentia uma fracassada, levando em consideração que sou uma pessoa super inteligente e capaz, mas a compulsão destrói a autoestima em todos os sentidos, no meu caso, no profissional. A única coisa que não mudou foi a imagem das outras pessoas em relação a mim, eu acho que as pessoas só acreditam em você se te veem magra ou emagrecendo”.

Longe dos fármacos, Adriana prossegue com sua missão. E uma das reflexões que deixa, ao final do encontro do CCA, é que a dificuldade para vencer os transtornos alimentares existe, mas é contornável. “A sociedade se relaciona com a comida, através da comida. Agrada com comida. As festividades são com comida. Então, para eu viver socialmente sem a comida, só com o apoio de uma força superior. Cada um tem sua história, sua vivência”, finaliza.

Anúncios

Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
Esse post foi publicado em Sem categoria e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s