Paulistanos, paulistas e guarda-chuvas

Parece bruxaria. Em questão de minutos, o céu azul se transforma num cinza cor de chumbo que praticamente emenda com os prédios e o asfalto. São muitos tons de cinza – com a diferença de que estes não tratam de orgasmos controlados e revisados por algum mestre de língua portuguesa – sem direito a gemidos com ênclises e próclises.

A terra treme. Os trovões ribombam. Lá fora. Aqui, é tudo hermeticamente lacrado. Os pingos passam direto e correm pelas vidraças. São uns bons metros até que se despejem na cabeça de algum desafortunado que por ventura tenha esquecido o guarda-chuva.

O ar-condicionado faz com que a chuva seja apenas um detalhe. Aqui dentro é sempre vinte graus e a umidade está sempre no nível aceitável. O mundo acaba em barranco. Mas lá fora.

Os paulistanos, ao longo dos anos, perdem muitas habilidades e capacidades.

Tomemos como exemplo o desafortunado acima e sua falta de guarda-chuva. Vamos adotar que seu local de trabalho – e a vidraça da qual escorreu a água sacana – seja na avenida Paulista (ou qualquer outro lugar que concentre escritórios; a escolha é sua).

Se este sujeito morasse no interior certamente ele não teria esquecido seu guarda-chuva. Porque a) ele teria sentido o cheio da chuva pela manhã, por mais ensolarado que parecesse o dia ou b) teria visto no horizonte com bastante antecedência o pé-d´água que se aproximava.

Agora, responda-me, ó nativo da Pauliceia, cheirador de escapamentos: que raios de chuva você vai conseguir cheirar de manhã ou a qualquer hora do dia nessa terra?

Tudo bem. Não precisa ser tão sensitivo assim. Qual seu campo de visão para conseguir enxergar uma chuva se formando? Sua visão termina onde começa o próximo prédio.

A verdade é que o sujeito lá de cima talvez nem necessitasse de um guarda-chuva.

Enquanto alguns têm – e basta – o instinto, para outros restam as furadas previsões do tempo, ridiculamente incapazes de realizar sua única finalidade: prever.

Exatamente como nós: orgulhosos, herméticos e ar-condicionalizados paulistanos.

Paulistanos e paulistas: quem manga de quem?

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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