Nem tudo está perdido

É. Nem tudo está perdido.

Isso foi o que disse, assim, ventada pela pressa, uma senhora que passou atrás de mim. Contexto?

Enquanto um homem com voz de veludo falava sobre os produtos chineses vendidos no primeiro piso do “sópim” (sim, não é shopping) de contrabandos aqui da avenida Paulista, perto da estação Consolação do metrô, havia um coral. De crianças.

No pequeno coreto montado especialmente para o fim do ano, em frente ao shopping Center 3 (não, este não é “sópim”) , um grupo de crianças.

Um homem grisalho, o maestro, vestia não fraque e casaca como os maestros tradicionais: camiseta branca com o símbolo da ONG Meu Guri, da qual faz parte,  calça jeans e pequeno lenço para enxugar o suor. Sua batuta é a mão. Ou melhor, as mãos. Que, a cada movimento, parecem calejadas de notas musicais e acordes desgastados pelo tempo.

2012-12-11 12.20.29

Quatros flautas doces à frente. Cerca de 15 crianças posicionadas em um degrau mais atrás.

Em pleno horário de almoço, numa terça-feira ensolarada de dezembro, algumas pessoas passam, olha e param. Por alguns instantes, ficam encantadas com aquela beleza.

A inocência e a pureza daquelas vozes que entoam as canções natalinas fazem os escravos dos ternos, gravatas, sapatos de salto e relógios esquecerem, nem que por cinco minutos, sua servidão a uma vida de trabalho, estudos, obrigações.

É como se o coreto estivesse embrulhado em um papel que impede a passagem do tempo. O papel mágico se espalha e envolve a todos os que pararam.

Não sei se é Deus ou Papai-Noel, mas há algo de muito especial ali. A música, cristalina, toca o fundo da alma, do coração. Sem pieguices. Nem o som ribombante da avenida Paulista em pleno horário comercial consegue vencer as crianças.

As crianças ganharam do trânsito. O maestro conduz magnificamente aqueles pedacinhos de gente pela trilha da música verdadeira.

Não sei o nome dele. Tampouco, o das crianças. Mas senti como se os conhecesse há muito tempo. Lágrimas me vieram aos olhos.

Entre as músicas, aplausos. Palmas se chocando contra palmas. Assobios. Mais palmas.

Aquelas crianças são mais do que cantoras ou flautistas: são a encarnação de tudo o que há de bom ainda nessa terra. Ali, a peste, a fome, a guerra, a seca, as bombas, os tiros, a pobreza, o lixão, as granadas, as balas perdidas não podem entrar.

O maestro está ali elevando o espírito de todos.

Momentos assim são o que nos faz crer em um mundo melhor ainda possível. Nos renovam a fé na humanidade e naquilo que resta de humano. “Nem tudo está perdido”, disse a senhora.

Este clichê nunca foi tão bem dito. E bendito.

Confiram um trechinho e se encantem:

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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