Não adianta falar mal do leite derramado

Não adianta falar mal do leite derramado

Com 78 anos e cabelos de algodão, dona Zefa não tem medo de viver. Uma vez por ano, nos últimos 14, arruma suas malinhas e vai para Pernambuco ver os parentes. De ônibus. Dois dias e três noites de viagem.

Na bagagem (que se multiplica na hora da volta), mais do que queijo e castanhas de caju: bom humor. Essa é minha avó. Pergunte, no momento em que ela descer do ônibus na Rodoviária do Tietê, se ela quer viajar novamente, naquele instante. A resposta é mais do que sim. “Demorou, coração.”

Dona Zefa dá aulas para quem quer chegar à idade dela tomando apenas dois comprimidos por dia, e sem reclamar de dores aqui e ali. Quase como Jesus Cristo, utiliza-se de parábolas. “Fui tomar meu cafezinho da tarde e deixei o leite esquentando no fogão. O telefone tocou. Fui atender e fiquei mais tempo do que imaginava falando. Quando voltei pra cozinha, o fogo tinha apagado e tinha leite derramado, e escorrido por tudo.”

Sabe o que vovó fez? Nada. “Tava só eu e Deus aqui. Olhei pro céu e falei ‘tá vendo só, Dona Zefa?’”. Olhou a bagunça, jogou um paninho no chão para sugar o leite, pegou seu pãozinho, o café preto mesmo e foi para a sala ver televisão. Com seu um metro e quarenta e cinco de altura, disse que “tomou café igual gente grande”.

Foi limpar a bagunça só horas depois. “Olha, o que adianta eu ‘chamar nome’ quando algo dá errado? Não vai voltar atrás. Se eu dissesse nome feio ali o leite não ia voltar pro canecão.”

Hum.

Quantos de nós teríamos feito o mesmo? Eu, você e metade da humanidade teria xingado até a quinta geração do sujeito que ligou para casa e nos distraiu. Teríamos chamado de filhos de uma mulher da vida o fogão, o leite, o caneco… Muitos de nós, creio eu, teríamos cancelado ali o café, perdido o apetite e ido fazer alguma outra coisa com uma amargura de dar dó.

O segredo da longevidade está mais em levar a vida menos a sério do que em comer brotos de não sei o que com farofa de linhaça; o pão de centeio com mil grãos não compensa a gritaria, o buzinaço infernal do trânsito; o iogurte regulador de intestinos não terá a menor utilidade diante de uma cara de bunda.

Bom humor é animal em extinção.

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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Uma resposta para Não adianta falar mal do leite derramado

  1. Toni disse:

    Aliás essa tal de linhaça é uma delícia, com muito leite condensado…

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