Do Interior: Católicos, idosos e Nossa Senhora Aparecida

A música ecoa pelas paredes azuis da pequena igreja, que absorve a música cantada, sem o acompanhamento de instrumentos, pela assembleia pouco numerosa.

Uma vela bruxuleia sobre o altar, ao lado das taças do vinho e da hóstia. Um pequeno Jesus Cristo de madeira logo acima, do alto de seu crucifixo, observa os fiéis: as cabeças estão já, há muito, brancas, e a pele vincada, amarrotada pelo tempo: grande parte já ultrapassou os sessenta anos.

A primeira festa fora há mais de 30 anos, lá pelos idos de 1982, quando a Capela, que só teria sua pedra-fundamental assentada em 1993, não era mais do que um sonho de cinco famílias – Vitorino, Matavelli, Cassaniga, Martins e Bragion – e de uma cidade que crescia (apesar de agora menos católica e mais idosa).

Capivari está a 140 quilômetros da capital paulista e reflete uma tendência do Brasil. Seus 48.575 habitantes estão menos católicos e mais velhos, segundo o IBGE.

O padre João Quaresma não se importa com as estatísticas do Instituto. Negro, com seus quarenta e poucos anos, entra na igreja, acompanhado pelo coroinha, sob as vozes da pequena multidão que entoa o rito inicial.

Mais abaixo do Cristo pregado na parede, está Nossa Senhora Aparecida. A imagem está envolta em rosas amarelas e azuis, e folhagens. A pedra preta num forte contraste com o manto de veludo azul com bordados dourados. Mãe e filho sagrados assistem ao padre Quaresma aspergir o pessoal com a água benta. Fileira por fileira, ele caminha, mergulha um feixe de ramos verdes numa jarra e espirra. Caminha, mergulha, espirra.

Aqueles capivarianos católicos que estão ali, a despeito do vento frio e garoa lá fora, para assistir à missa em homenagem à padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, na igreja de mesmo nome, deixaram de ser hegemônicos: apenas 64,6% da população brasileira, em 2010, se declarava católica, segundo o IBGE.

Apesar disso, está sobrando menos água benta na pacata cidade do interior paulista do que no restante do país: lá, a média de católicos é ligeiramente maior do que a de evangélicos: 67,9%, contra 23,6%. Já no quesito idade, 4,7% dos homens têm acima de 60 anos e as mulheres, 5,8% (em 2000, eram 4% e 5,3%, respectivamente). Mudança aparentemente pequena, mas bastante sensível, ainda mais se levarmos em conta o fato de que a Santa Casa da cidade não tem UTI e a população idosa é a que mais inspira cuidados e remédios.

Na primeira fila, o coral de crianças que vão comungar pela primeira vez. Para receber o corpo e sangue de Jesus, e se inteirarem dos demais mistérios da fé, precisam participar de todas as atividades eclesiásticas, inclusive das missas, mesmo que depois de concluídos os ritos de comunhão, desapareçam da Santa Igreja. Suas becas, azuis e amarelas. Puxam o canto. Seguem duas senhoras com folhetos lá na frente. Devem ser catequistas.

Gente de pé. A igreja está cheia. Ali, no bairro do Engenho Velho – e, claro, no restante do Brasil-, o dia 12 de outubro é especial para a comunidade católica. Foi fixado nesta data pela Igreja Católica em 1954, como dia oficial em que os pescadores Domingos Martins García, João Alves e Filipe Pedroso encontraram no rio Paraíba, enquanto pescavam, a imagem de Nossa Senhora da Conceição, sem a cabeça. Diz a história que jogaram novamente a rede e pescaram sua cabeça. Juntaram as duas peças, e a pescaria, até então sem trazer peixes, trouxe redes e mais redes carregadas. O ponto passou a ser local de peregrinação e devoção de centenas, de milhares e, hoje, de milhões de fiéis que visitam o Santuário de Nossa Senhora Aparecida, inaugurado em 1967, nas proximidades do suposto milagre.

Com a missa já avançada, a alternância entre cantos, orações e leituras provoca um ritmo extasiante. A voz uníssona da assembleia, que responde ao padre, permanece no mesmo tom. Aquela pequena multidão é poderosa, pode-se sentir o chamado de alguma divindade naquelas vozes, unidas na homenagem à mãe de Deus.

Ali ao lado, um senhor trajando um par de calças sociais cinza-escuro, camisa azul-celeste e blusa de lã, com um guarda-chuva aos pés, bate palmas para acompanhar a música do momento. Vidrado, uma palma da mão se choca com a outra num ritmo próprio, que nem de longe é o da canção. Mas ele prossegue, até que o silêncio volta a reinar, e o padre e seu coroinha começam os preparativos para a comunhão.

Lá na frente, o padre ergue a taça com as hóstias, com o vinho, refaz os últimos gestos de Cristo na ceia e repete suas palavras. Enquanto isso, o cheiro de churrasco se infiltra pelas janelas abertas. Um converseiro também é audível. O coroinha toca a sineta enunciadora dos mistérios juntamente ao zum-zum-zum nas barracas contíguas à igreja em torno de brigadeiros, bolos e demais guloseimas, os quais serão vendidos mais tarde. E não para por aí. Uma das fiéis diz que todos os anos a comunidade ativa se doa para realizar a “Festa em Louvor a Nossa Senhora Aparecida”, com almoços e jantares no barracão da igreja, e novenas ao longo do mês de outubro.

Findado o comungar, o padre Quaresma anuncia a procissão. Uma volta pelo bairro com a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Quatro homens que não aparentam ter mais de 30 e poucos anos se aproximam do altar e, cada um numa ponta, erguem a bandeja onde está a imagem. Nossa Senhora à frente e a comunidade atrás, cantando. Um a um saem da igreja. Poucos ficaram. Entre eles um idoso com dificuldades de locomoção e um pai com sua filha, ainda no colo.

À frente, escutam-se soluços. Uma senhora toda de preto chora, próxima do altar. Perdeu o marido há pouco tempo. Sentada na primeira fila de bancos, os soluços se transformam em murmúrios.

Tudo é abafado pelas conversas do povo que retorna da procissão. Aplaudindo e dando “vivas” à Santa.

No momento seguinte, a imagem está recolocada em seu pedestal. O padre retorna a seu lugar sacro e ensaia o fim da missa. Mas, antes, ainda tem a homenagem às crianças, afinal, também é dia delas.

Cada uma ganha uma embalagem de plástico com salgadinho, balas e outros doces. Os demais fiéis recebem um chaveiro com duas medalhinhas: a imagem de Nossa Senhora em uma, e a da Basílica de Aparecida, na outra. Padre Quaresma adverte que é apenas um por família.

Certo paulistano infiltrado consegue mais um. Que os céus perdoem a malandragem da cidade grande.

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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Uma resposta para Do Interior: Católicos, idosos e Nossa Senhora Aparecida

  1. Piracetam disse:

    Ó incomparável Senhora da Conceição Aparecida, Mãe de Deus, Rainha dos Anjos, Advogada dos pecadores, refúgio e consolação dos aflitos e atribulados, Virgem Santíssima, cheia de poder e de bondade, lançai sobre nós um olhar favorável, para que sejamos socorridos por vós, em todas as necessidades em que nos acharmos. Lembrai-vos, ó clementíssima Mãe Aparecida, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que têm a vós recorrido, invocado vosso santíssimo nome e implorado a vossa singular protecção, fosse por vós abandonado. Animados com esta confiança, a vós recorremos. Tomamo-vos para sempre por nossa Mãe, nossa protectora, consolação e guia, esperança e luz na hora da morte. Livrai-nos de tudo o que possa ofender-vos e ao vosso Santíssimo Filho, Jesus. Preservai-nos de todos os perigos da alma e do corpo; dirigi-nos em todos os assuntos espirituais e temporais. Livrai-nos da tentação do demónio, para que, trilhando o caminho da virtude, possamos um dia ver-vos e amar-vos na eterna glória, por todos os séculos dos séculos. Amem!

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