A saudade nossa de cada dia

Rodoviárias são um mundo à parte. Ou melhor: são uma teia de incontáveis histórias, que se cruzam entre plataformas, rostos apressados e suores com diferentes sotaques. 

Quando passo por este cruzamento de muitas vidas, sempre me pergunto: Quem serão estes rapazes encostados na grade? Para onde vão a mulher, sua filha e a caixa de tevê? Que histórias este senhor com chapéu de couro traz no seu bolso? E esta senhora que chora? Será ela, mãe, avó, esposa, viúva, filha, amante? O menino que chora no colo da mãe espera um pai que nunca voltará? 

E, arrisco dizer que, 99% das histórias cujo cenário é o mundo mágico da rodoviária tem como eixo um vocábulo que todos sabem o que é, mas ninguém consegue explicar: a saudade. 

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Estar no estado de saudade é entregar um pedaço da própria carne, ainda sangrando, a outrem que, consequentemente, dará uma fatia de seu próprio ser. Estes dois seres humanos só serão completos novamente quando se encontrarem e puderem restituir a si próprios as partes faltantes.

Note-se aqui que é separação física apenas. O espírito e a consciência de ambos os separados seguem juntos: a lembrança doce do riso, as lágrimas vertidas na hora do adeus, os olhares demorados sobre os olhos, o abraço forte e demorado, o cheiro de xampu dos cabelos recém-lavados, o perfume impregnado na gola, a marca de batom na bochecha, um beijo roubado, outro beijo, agora consentido, o bom-dia e o boa-noite sorrindo, acordar e ser acordado, o prazer de um filme, a refeição completa, o sentir-se bem ao lado dos amigos.

Nada mais bonito que o reencontro de dois seres que estão explodindo de saudade. Mas nada tão doloroso quanto a separação física entre eles. 

As lágrimas vêm subindo aos olhos, num movimento incontrolável. Não há como impedi-las. O último abraço e o último beijo até o próximo encontro. Os dois corpos se separam, mas não adianta, pois os cheiros de ambos estão entranhados já. Uma sucessão de portas fechando dá o veredito: fecha-se o bagageiro; lacra-se a porta de embarque da plataforma; por fim, numa martelada final e impiedosa, a porta do ônibus é travada. 

As lágrimas irrompem cá e lá, abafadas, sentidas, doídas; a materialização dos abismos particulares. E a vida segue. Até o próximo encontro. E despedida. 

 

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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8 respostas para A saudade nossa de cada dia

  1. Tava indo dormir, mas vi o post e decidi ler. Tenho um problemão com saudade, não acontece comigo faz tempo, perdi o tato. Mas valeu por eu voltar no tempo, e lembrar de sentimentos que já estiveram comigo… :\ Lindo o texto, parabéns….

  2. glampaete disse:

    Di, parabéns pelo texto. Por instantes bateu a saudade e a nostalgia de certos momentos. Um bom texto é isso, é humanizado e consegue tocar o leitor. Arrasou. Beijos

  3. glampaete disse:

    Di, parabéns pelo texto. Por instantes bateu a saudade e a nostalgia de certos momentos. Um bom texto é isso. É humanizado e consegue tocar o leitor. Arrasou. Beijos

  4. proftonii disse:

    Baita texto guri! De dar orgulho no titio! Beijos.

  5. Luiz Nascimento disse:

    Sei que se eu disser que reli seu texto pelo menos meia dúzia de vezes o senhor não vai acreditar, mas até por isso demorei a comentar. Desde sempre, quando viajo, e seja qual for a viagem – sendo minha ou de alguém querido – fico com um certo aperto no peito. Aquele medo da distância, da perda imediata, do inesperado. Aquele medo da saudade.

    Tenho pra mim que a saudade é um dos melhores sentimentos que temos, porque sua existência está atrelada ao mais puro, verdadeiro e implacável deles: o amor. A saudade honra sua alcunha de sentimento, porque não é algo racionalizável, é algo que, simplesmente, se sente. E este sentir é o sentir do compadecer, do padecer, do entregar-se.

    E isso nos causa medo. Por mais que saibamos que ela é uma afirmação do nosso amor, não queremos que ela nos prove nada, queremos mesmo é ter a amada ao lado e dane-se as evidências. Contudo, a saudade mostra que nossa vida está valendo a pena, afinal, se a possuimos, temos uma bonita história para contar. Aliás, é ela que nos possui.

    Enfim, saudade é tudo aquilo que desejamos e que não sabemos explicar. É aquilo que sentimos, é aquilo que tememos, é aquilo que nos move – tanto a fazer quanto a evitar. A saudade é também o medo do inesperado, do incontrolável, do inalcançável. A verdade é que a saudade é o preço que se paga por amar. Às vezes o amargo, às vezes a doçura. Amar é o mais difícil entre o inevitável.

    Parabéns pelo texto, rapaz!
    Tocante na acepção da palavra!
    Abraço!

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