A pena agoniza

Compor um texto no papel, sem aquelas linhas vermelhas do Word corrigindo os crimes cometidos contra a Língua-Mãe, é um desafio.

Estas linhas (agora digitalizadas) passaram, antes, pelo crivo do papel e do grafite 0.5 desta lapiseira de marca duvidosa.

Como um experimento, resolvi me lançar ao exercício de “escrever à mão”. A conclusão foi terrível. Se não houvesse mais possibilidade de redigir no computador, e as máquinas de escrever não pudessem ser ressuscitadas, eu estaria em maus lençóis.

E não, não falo da extinção da capacidade de articular palavras de modo compreensível, claro e lógico no papel. O preocupante é a qualidade da caligrafia. A probabilidade de perder os escritos por esquecer o significado dos garranchos é alta.

O teclado do PC é o melhor amigo de quem tem letra feia.

A reflexão é assustadora: quanto que nós, dependentes do texto, escrevemos, ao longo dos anos de maneira mecânica? E manual?

Ai do coitado de algum professor atrevido que cogitar pedir meia página que seja escrita à mão. Os elogios de seus educandos logo pulularão: arcaico, velho, retrógrado, antigo, peça de museu, e outros termos menos elogiosos.

Num mundo que já é tão homogeneizado, será que não seria bom conservar os traços e garranchos? Não seriam as letras, aprendidas com tanto esmero ao longo do primário, partes do restinho de nossa individualidade?

As letras à mão (por mais fraudulento que seja o sujeito) são inimitáveis. Grafar algo é imortalizar sua singularidade, suas especificidades enquanto ser pensante num pedaço de papel.

Às vezes, fico com pena da pena.

Celulose e grafite passaram a ser uma combinação binária de milhões, bilhões de “0” e “1”, que não sujam as mãos ao escrever. Ou melhor, digitar.

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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