Quando as paixões nos possuem

Tudo ia bem. Mas (sempre a maldita conjunção adversativa) ele citou a revista. E era aquela revista demonizada. Páginas escritas de próprio punho por Satã.

O diabo estava naquelas páginas. Não era possível que um homem com tanto conhecimento apoiasse sua palestra e toda sua explanação em uma reportagem apurada, redigida, editada e divulgada por aquele veículo, dito o pior de toda a imprensa daquele país de sofredores.

Quer dizer, apuração é ser gentil. Conteúdo extraído de grampos sem áudio; documentos em branco; denúncias vazias. Fato provado.

Mesmo com tudo depondo – literalmente, no Congresso Nacional – contra aquele calhamaço de manchetes, textos e imagens, lá estava o sujeito embasando naquilo suas considerações.

Devo jogar fora as anotações que vinha fazendo até o momento? Foi meu primeiro impulso. Numa cachoeira de discordância com o palestrante. Levantar de lá e ir embora.

“Ok, ele citou apenas uma vez. Quem sabe foi um lapso”, penso na minha ingenuidade.

Até que veio a segunda citação.

“Tá lá, ó! A revista entregou tudo! Entregou! Tá dito!”, vociferou. “É isso que vocês, futuros jornalistas, precisam aprender, para não sair dizendo besteira por aí!”.

O homem estava possuído. Nele entrara um espírito do mal.

Fecho o bloquinho.

Deveria eu, pobre mortal que sou, anular todas as tabelas, gráficos, impressões, contextualizações de um megaespecialista na área por conta de sua visão político-ideológica?

Será que por discordar de um posicionamento do fulano ou sicrano ou beltrano que lê a revista “x”, em detrimento da “y”, que acompanha o cego raivoso da direita, em lugar do tonto de esquerda ou lê o blog estatizante, em lugar do liberal, eu preciso satanizá-lo?

Oras, se assim o fizesse, o possuído seria eu, e não ele.

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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Uma resposta para Quando as paixões nos possuem

  1. Luiz Nascimento disse:

    Conclusão irretocável!

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