Vim te buscar

A janela do banheiro estava lacrada. O vapor do chuveiro condensava-se nos azulejos, que choravam. Não se via nada no ambiente. Água caia em jatos fortes, insuficientes para aplacar o sono daquela manhã. Nove graus do lado de fora. Com o vento e o céu azul escuro, cheio de pontinhos prateados cintilantes, a sensação térmica era de cinco. Aqueles quarenta minutos embaixo da água fervente já eram suficientes. Mas e a coragem de fechar o registro? Às vezes, interromper o maldito chuveiro é mais difícil do que peregrinar até o governo toda semana e implorar mais uns tostões de aposentadoria. “Exagero”, você dirá. Não, meu caro. Àquela altura, do dia e da vida, era a mais palpável verdade.

Resoluto, abriu a cortina de plástico e pegou a toalha. Só quando estava bem embrulhado no felpo, desligou o chuveiro: o bicho rugiu por uns instantes, piscou e esperneou uns últimos jatos. “Preciso passar no depósito e comprar uma resistência nova. Essa vai queimar logo.”

Entre calçar as velhas chinelas de couro e sair para o quarto, gastou poucos instantes, apesar da idade já avançada. Olhou o velho despertador no criado-mudo: 4h00 da manhã. A cama gritou quando ele sentou para amarrar os tênis. Sua esposa falou algo que não entendeu, deu uma tossida e continuou a dormir.

——

Levaria pelo menos três horas e meia até o local que precisava ir. Quatro ônibus e estaria lá. “Onde, mesmo?”, perguntou-se enquanto fervia a água para o cafezinho magro. O pão velho do outro dia o observava do outro lado da mesa. Seu olhar era duro. A pasta com os documentos estava do lado das moedas para pagar as passagens. Pegou-a e ao inseparável guarda-chuva. Mais uma penteada nos cabelos brancos que lhe restavam e saiu. Apagou a luz da minivaranda e andou para a rua de terra batida. Fechou o portão, mas sem bater. As dobradiças rangeram em protesto. Repassou mais uma vez seu itinerário. Lembrou-se do prédio para onde ia.

“O senhor precisa pegar a senha e estar aguardando o chamado.”

“Hoje eu consigo, minha filha?”

“Não tenho como informar, senhor. O senhor precisa esperar, porque é o moço lá de dentro que faz o cálculo e vê isso”.

Estava cheio daqueles cálculos. Com 85 anos, estava há pelo menos doze naquela peregrinação infernal. Toda a semana era aquele aborrecimento. Ia por conta própria para refazerem o cálculo de sua aposentadoria.

Contratou um advogado, certa vez, mas o homem, sobrinho da vizinha, havia fugido com seu dinheiro e deixado apenas o problema. Viria descobrir, depois, que o picareta usara seus dados e os de sua esposa para pegar empréstimos e dar desfalques. A dívida rolava e seu nome sujo na praça.

Persistente, queria o que era seu por direito. Nem das dívidas reclamava. Seu pai, sujeito rude do campo, tinha ensinado a nunca pegar o que era dos outros e nunca ficar devendo. “Deitar a cabeça no travesseiro e dormir sem peso na cabeça, rapaz”, o velho dizia. O único vivo entre os cinco irmãos, mantinha acesa a sabedoria.

—–

Finalmente, chegou ao posto (naquele dia gastou quase quatro horas).

Como de costume, pegou a senha e esperou. Uma hora e trinta e cinco minutos depois, chamaram seu número.

Sentou de frente à mocinha. Entregou seus documentos e explicou sua história, de novo. Pomposamente, ela olhou seus arquivos e datilografou algumas informações. Franziu a testa e confirmou os dados. “Só um instante, senhor.”

Aquilo nunca tinha acontecido! Pela primeira vez, algo saia do roteiro. A atendente tinha saído da mesa para alguma consulta externa sobre seu caso. “Hoje, recebo o que me devem”, pensou aliviado.

Quando a moça retornou, vinha acompanhada de um homem. O idoso já estava com lágrimas nos olhos e mal conseguia disfarçar as emoções. “O senhor pode me acompanhar, por gentileza?”.

Óculos escuros, terno preto. Modos mecânicos, aparentemente um policial. Mas ele tinha uma pasta e um crachá que o identificava como alguém do governo.

“Vim te buscar.”

Foram as três últimas palavras que ouviu antes de acordar, suando frio na sala de espera. Faltavam poucos números para ser chamado, mas o suor não diminuiu. O coração acelerava. Uma súbita dor o atingiu do lado esquerdo do peito. Arfou duas vezes antes de escorregar pela cadeira de plástico e ir de encontro ao piso frio daquela repartição pública.

—–

O chuveiro ficou sem resistência nova.

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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