Muito barulho, pouco conteúdo

“Mackenzie é tradição.”

Esse foi o argumento visível e gritado, palavra de ordem, da mega-manifestação (800 pessoas,  para o “padrão Mackenzie” de manifestação é muito) contra a utilização do ENEM em lugar do vestibular de inverno da Universidade.

Muito barulho, pouco conteúdo.

Em alguns momentos, ouvi gente questionando a qualidade do exame, mas o ponto principal apontado foi a tradição. O Mackenzie sempre teve um vestibular. Por isso deve ter sempre (antigamente, há não muito tempo, caçavam-se comunistas em pleno território universitário, uma tradição, felizmente, abolida). Aqueles que defendem cegamente suas tradições devem tomar cuidado. Sem contar o poderoso sentimento “ultranacionalista” com relação ao Mackenzie, que levou 800 estudantes a interromper o trânsito na Rua da Consolação às 11h da manhã, cujo caráter é lindo e perigoso, equilibrado numa linha muitíssimo tênue.

Obviamente o ENEM tem falhas. Assim como a FUVEST, a prova da FGV ou a de admissão para o jornal Folha de São Paulo. Impossível que com a amplitude do exame (com quase 6 milhões de inscritos e aplicado em quase todo o Brasil) este não tivesse falhas. Inclusive aquelas as quais escapam das mãos do governo (por exemplo, o colégio cujo professor acessou a prova e passou para os alunos). Falhas essas, inclusive, que podem acometer o nosso tradicional vestibular mackenzista. 

O ENEM vai enfraquecer o nome da Universidade. Oras, conheço pessoas que estão no Mackenzie, pagam a mensalidade e não tem o requisito básico para o curso. No caso, pessoas que cursam jornalismo e não tem a menor noção do que fazem ali, não sabem escrever. Gente que prefere ficar no bar ou fora da sala de aula vai ter com vestibular de tradição ou com ENEM.

O Exame Nacional do Ensino Médio é porta de entrada para Universidades Federais, com cursos muito bem avaliados. Não me parece que a adoção do exame tenha provocado queda no nome dessas universidades.

Agora, um ponto que acho bastante importante: dizem que os alunos do Mackenzie têm sangue de barata – conformados, avessos a protestos (aquele contra as catracalização do campus foi irrisório). Porém com essa manifestação, apesar de me parecer completamente equivocada, bairrista, conservadora e retrógrada, é uma manifestação. Isso me mostra que nós ainda temos voz para reclamar daquilo que consideramos errado.

Por isso, minha mescla de descontentamento e orgulho de pertencer ao Mackenzie.

* Vamos comentar. Divirjam, discordem, apoiem, neguem! Mas vamos manter o nível de educação, por favor.

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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5 respostas para Muito barulho, pouco conteúdo

  1. Marcelo Albuquerque disse:

    Com todo respeito, não ficou claro que você apoia ou não o Enem.

    Está mesmo preocupado com o que ocorre ou apenas está sendo oportunista? Acha sábio dizer que tem pessoas com Vestibular Mackenzie e pessoas com Enem, matando aulas nos bares? Em que lugar do mundo isso é diferente? Onde você já foi e constatou que não é igual? Talvez num convento, num lugar totalmente isolado onde a modernidade urbana não tenha alcançado…jamais será por um exame, por uma prova para calouros.

    Acho chato ser deselegante com os outros em algo que fica registrado publicamente, mas, educação não é só ser respeitoso, tem que ser coerente.

    Abraços.

    • Disimo disse:

      Por que razão seria oportunista? Acho que se a questão não me preocupasse não me daria ao trabalho de escrever e estimular a discussão sobre. Qual é o oportunismo para um estudante de jornalismo que quer discutir um assunto bastante polêmico sobre a Universidade a qual pertence e quer melhorar?

      E, justamente. Em que vai mudar o “nome da Universidade”, o ENEM ou o vestibular…as pessoas que desvalorizam o ambiente acadêmico entram por meio do ENEM ou por meio do vestibular (“jamais será por um exame, por uma prova para calouro”, portanto qual o grande drama?)

      Não apoio nem “desapoio”, só não vejo a hecatombe que supostamente avizinha com a mudança. E, não sei se você percebeu, mas minhas impressões são favoráveis ao ENEM ao criticar o “bairrismo” ou a posição retrógrada dos manifestantes.

      Discussão é isso. Opiniões, argumentos e coerência. Não vejo em que ponto fui incoerente…Leia melhor o texto com mais cuidado da próxima vez.

      Abraços e obrigado pela leitura e comentário.

  2. Marcelo Albuquerque disse:

    Incoerências:

    “Não me parece que a adoção do exame tenha provocado queda no nome dessas universidades.”
    Se não tem base para algo tão importante, não fale sobre…

    O texto em si se põe em duvida se é a favor ou não da manifestação, mas não quero mais falar disso já que o que mais chama atenção a ‘não coerência’ agora, é o comentário que fez:

    “Não apoio nem “desapoio” (…) “E, não sei se você percebeu, mas minhas impressões são favoráveis ao ENEM “.

    Pelo visto o jornalismo de hoje está sendo formado como os que já estão em vínculo há tempos, talvez sempre (no Brasil), parece o Kassab querendo estar com o PT e com o PSDB ao mesmo tempo e de repente escapule um amor maior por um (plano de carreira) onde criam-se ‘novas’ bancadas que o faz pender mais para um lado que o outro, é, te entendo. ”Avizinhar” é uma boa saída.

    Obrigado.

    • Disimo disse:

      Você está distorcendo o que estou falando, meu caro.

      Disse que minhas impressões são simpáticas ao ENEM, mas não se trata de apoiá-lo ou não.

      Os aspectos técnicos têm que ser discutidos. Agora, o que não engulo é essa história de falar que é a “tradição” que define o que é melhor ou não.

      Volto a pedir que atente para a realidade das minhas palavras e não “viaje na maionese” (sua analogia com a política nacional não faz o menor sentido).

      Leia direito antes de dizer essas coisas (como você mesmo disse: “Se não tem base para algo tão importante, não fale sobre…”).

  3. Marta Lorena disse:

    Tudo o que é discutido e defendido com respeito deve sim estar nos meios de comunicação públicos, ou pelo menos em blogs como este. Não se trata de uma defesa. Entendo que não podemos apoiar o sucesso ou o fracasso da humanidade em cima de uma ou várias “tradições”. Já sabemos que “tradicionalismos” levam apenas à segregação de grupos, classes, pessoas… também é sabido que processos de seleção “aparentemente” rígidos não garantem o “melhor aluno”. A questão é que o ENEM está trazendo para as Universidades, pessoas que antes eram excluídas deste meio. Porque não tinham capacidade? Não, pelo puro e simples “sistema”. Cada vez menos existe a “barreira” ideológica das classes em busca de um “status quo” mais justo. Ora, a Democracia deve estar acima de questões políticas. Por isso, não uma questão de apoiar ou não os ENENS da vida, nem os VESTIBULARES… a verdade é que se o Enem permite acesso às universidades, certamente aumenta a competitividade. Quem não é do ENEM que estude mais e “passe” no vestibular tradicional. O que não está certo é levantar uma bandeira de falso moralismo, em nome da uma tradição que só revela o pensamento seccionista e arcaico de um grupo que “pensa” estar no poder. Seres pensantes não saem somente de instituições tradicionais, aliás pelo visto, saem com cabrestos e cegos para a realidade da sociedade. Não importa se o aluno vem do Enem ou do vestibular sem o Enem… importa é ele levar a sério seu papel de estudante e futuro profissional e isso, não depende de nenhum exame seletivo. E ese discurso de tradicionalismo me parece mais aquelas antigas crenças de classificar pessoas entre boas ou não para estarem em ambientes como o Mackenzie. Não vejo prejuízo ao nome de uma instituição, que além da “tradição” carrega uma confessionalidade religiosa em sua filosofia, onde a secção de pessoas sequer poderia ser cogitada. Não se pode separar pessoas por Enem ou sem Enem… o aluno que é brilhante se destaca de qualquer forma, não só pela nota, mas por sua capacidade de questionar, argumentar e não é por estar numa instituição tradicional paulistana, mas pelo simples fato de dedicar-se com afinco e saber o seu lugar e o seu papel social. Cada ser humano precisa ter a consciência de que deve acrescentar em seu meio e não ser um peso para a sociedade. A sociedade não é obrigada a “carregar” um indivíduo que não produz nada ao longo de sua vida, seja ele oriundo de um sistema educacional falho ou não, seja ele da escola pública ou de uma escola “tradicional”. É muito mais uma questão de caráter e os “tradicionalistas” que se segurem e se garantam, porque vivemos numa Democracia e a Constituição Federal é bem clara neste aspecto. Além do que, o Ensino Superior Público é feito para quem? E quem está nos bancos destas instituições públicas? Os estacionamentos destas universidades estão abarrotados de carrões importados ou não, mas “carrões”… aquele que fez o “cursinho” porque não deu conta de dar o melhor nos três anos do Ensino Médio (mesmo na rede privada de ensino), por puro descaso e porque “depois daqui meu pai vai pagar um cursinho para eu passar no vestibular”… E que provavelmente no futuro também pagará pelo Diploma de seu filho. O menino faz então todos os vestibulares que pode, mas se passar na Federal, então fica lá porque não “paga” e tira a vaga de outros grupos que precisam de “quotas” para ingressar (este sistema de quotas é ridículo). E isso só prova que “vestibular” não garante uma mente pensante ou um grande pesquisador. É muitas vezes, só mais um mecanismo de exclusão social. Mas já que ele existe e o Enem também, que sejam pois a forma de dar acesso A TODOS à esta EDUCAÇÃO SUPERIOR, e que infelizmente poucos conseguem neste país. Os argumentos do autor do post são pertinentes ao abordarem uma questão que hoje em dia, não cabe mais em sociedade alguma: a exclusão social.

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