ESPECIAIS: Língua portuguesa e brasileira?

Lusofonia: uma força ignorada, uma união despercebida

Por Luiz Nascimento*

Dando sequência à série especial “Desvendando Portugal”, tratarei neste texto da lusofonia, da língua que une Portugal e Brasil. A Língua Portuguesa talvez tenha sido o maior legado deixado por Portugal ao Brasil após a colonização. Graças ao período das Grandes Navegações e das descobertas lusitanas, hoje o Português é a língua oficial de oito países ao redor do mundo, sendo a 6ª língua mais falada do planeta. Há cerca de 270 milhões de pessoas que falam português ao redor do mundo. Deste total, praticamente 190 milhões situam-se no Brasil.

Desacordos nas alterações da língua

O legado deixado pelos portugueses há séculos faz do Brasil o maior país que possui o Português como língua oficial, ultrapassando com muita sobra o próprio país de Fernando Pessoa. No entanto, no último século mais especificamente, houve muitas discordâncias e desentendimentos entre os países falantes da Língua Portuguesa. Talvez o mais polêmico destes entraves tenha sido o mais recente Acordo Ortográfico, elaborado em 1990, mas em período de adaptação neste momento, em todos os países lusófonos.

O descontentamento foi muito grande por parte das populações em questão, principalmente em Portugal e no Brasil. Tanto lá como cá, vozes divergentes tiveram espaço e fizeram barulho, gerando até uma certa desunião e desconfiança de um país para com o outro, mais um motivo para um dos vários conflitos sem necessidade e fundamento. Revoltas após acordos ortográficos são naturais, acontecem “desde que o mundo é mundo”. Fernando Pessoa, por exemplo, viveu um período de mudanças na língua e foi contra a abolição ‘ph’ para dar lugar ao ‘f’, assim como achava uma absurdo a palavra ‘lágrima’ não ser escrita como ‘lágryma’, para que se tivesse no ‘y’ a noção de uma lágrima escorrendo.

Independente do momento e do contexto, mudanças na língua geram discordâncias. O grande problema talvez tenha sido a motivação para tal mudança, que estava prevista para acontecer duas décadas antes.  A mudança acabou se dando muito mais por influências políticas que propriamente lingüísticas, tendo no Brasil o principal apoio a essa mudança. Muito se foi discutido, mas talvez a grande revolta por parte de Portugal tenha se originado do fato de que praticamente nenhuma reivindicação de mudança feita pelos portugueses foi atendida. Quase a totalidade das mudanças foi proposta pelo Brasil.

Portugal tinha voto de peso nessa decisão – por mais que os números de falantes fossem incompatíveis – e os países africanos seguiram a pátria-mãe da língua. Por isso a demora foi grande, mas no final, todos acabaram se rendendo àquele que possui mais da metade do número de falantes, o Brasil. No entanto, este não é o ponto da discussão. O grande problema não está nas mudanças trazidas pelo Novo Acordo Ortográfico, mesmo porque não foram enormes mudanças a ponto de mudarem o rumo da língua – apesar de algumas desnecessárias e problemáticas -, mas sim no modo como os países falantes do Português tratam a 6ª língua mais falada no mundo.

Rivalidades

Há que se deixar de lado qualquer rivalidade ou revanchismo histórico entre Portugal e Brasil ao se falar da Língua Portuguesa. A língua não mais mudará, portanto, há que se caminhar em conjunto para o fortalecimento da Língua Portuguesa ao redor do mundo. Algumas semanas atrás, o escritor português nascido em Angola, José Eduardo Agualusa, foi sabatinado no programa televisivo Roda-Viva, da TV Cultura de São Paulo. O principal assunto que tomou grande parte da entrevista decorreu-se da forma como Portugal, Brasil e os países africanos tratam a Língua Portuguesa.

Agualusa, que transita entre Portugal e os povos africanos, principalmente Angola, mas que também tem estreita ligação com o Brasil por ter seus livros frequentemente publicados por aqui, apontou as grandes falhas dos países lusófonos. É sabido que há duas forças em combate quando se fala em Língua Portuguesa, de um lado está Portugal e os povos africanos, do outro está o Brasil. Até pela proximidade do modo de falar e pela entrada de livro em seus países, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Timor Leste e São Tomé e Príncipe, unem-se a Portugal em qualquer assunto referente à Língua.

Seguir a “Pátria-Mãe”

Dos países que tem o Português como sua língua oficial, com exceção do Brasil, todos seguem a linha de Portugal tanto pela proximidade da fala e da escrita – com menos variações apesar das línguas nativas – quanto pela entrada de livros e quaisquer tipos de origem lusófona. O que é preciso deixar de lado, no caso, isso para todos os países, é que todos eles falam e escrevem a mesma língua, se comunicam por meio da mesma língua. Por mais que hajam muitas variações entre o “Português de Portugal” e o “Português do Brasil”, por exemplo, ambos falam Português. Assim como existem diferenças internas entre regiões de Portugal e regiões do Brasil, também há diferenças entre os dois países.

As mudanças a serem feitas na Língua precisam levar em conta a evolução do próprio Português, e não a valorização deste ou daquele, não o predomínio de um povo sobre outro. Todos falam a mesma língua e todos têm o direito do respeito. Porém, o mais importante nesse contexto todo é pensar na Língua Portuguesa de forma universal e em sua força no mundo. Afinal, falamos de uma língua com milhões de falantes ao redor do planeta, países espalhados pelo mundo e que merecem atenção e reconhecimento pela língua que falam.

Desafios da Língua: lá fora e aqui dentro

Um dos pontos mais abordados pelo escritor Agualusa nesta excelente sabatina que já citei anteriormente foi a preocupação dos dois mais fortes países quanto ao trabalho de ambos para fortalecer a Língua Portuguesa a nível mundial. O escritor ressaltou que apesar de ter 190 milhões de falantes e um território geograficamente gigantesco frente a Portugal, é o país de Camões que ainda capitaneia essa luta para a proliferação da Língua Portuguesa no mundo. O mundo, de um modo geral, ainda enxerga o Português como a língua de Portugal, reconhecem a Língua Portuguesa por ser de Portugal.

Segundo Agualusa, Portugal possui o Instituto Camões. Tal instituto, por exemplo, tem o intuito de traduzir livros de autores portugueses para outras línguas e assim proliferar o nome dos escritores lusos ao redor do mundo, valorizando assim, por conseqüência, a Língua Portuguesa. Agualusa ressaltou que, no Brasil, apenas os grandes escritores possuem seus livros traduzidos e exportados, e por iniciativa própria ou com ajudas externas, que não de seu próprio país. Ou seja, Portugal trabalha no sentido de valorizar seus escritores ao redor do mundo, para assim fortalecer a sua língua. Enquanto isso, mesmo com uma literatura riquíssima e com milhares de escritores qualificados, o Brasil não toma esse tipo de iniciativa.

Agualusa ainda realçou que Portugal usa a Língua Portuguesa para ter uma proximidade maior com os países africanos, coisa que o Brasil não faz. Nesse sentido, se ressaltam todos os aspectos, até mesmo os políticos. Brasil e Portugal ainda não perceberam que precisam se unir em prol da Língua Portuguesa. Enquanto Portugal resiste para admitir a força que o Brasil possui entre os lusófonos, o Brasil ainda não se atentou para o fato de que pouco faz para valorizar sua língua, assim como não enxergou ainda que terá de tomar a frente nessa luta, quem precisa liderar, ainda mais nesse momento econômico, a valorização mundial da Língua Portuguesa, é o Brasil.

Brasil e Portugal

E o Brasil não pode e nem tem como agir sozinho. Ao mesmo tempo em que precisa liderar essa luta por uma valorização da Língua Portuguesa, o Brasil precisa se unir a Portugal, que é a porta de entrada para a Europa, que ainda possui a reputação do grande pátria do Português e que já possui um trabalho solidificado neste sentido. Enfim, a língua precisa ser encarada como fator de união e ferramenta para a valorização de suas nações falantes. A língua de Camões possui uma riqueza e uma força incompatíveis com a importância que recebe de seus próprios falantes.

* Luiz Nascimento – Estudante de jornalismo, brasileiro de nascimento, com nacionalidade portuguesa. Ligado à comunidade portuguesa de São Paulo, neto de imigrantes lusos e sempre em estreito contato com Portugal.

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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