Telejornais apostam em modelo “popular”

Popular não é sinônimo de porcaria. Pelo menos não deveria.

O Jornalismo televisivo tem se mexido. Ou melhor, os “donos da bola” têm movido seus pauzinhos para, dizem eles, levar mais informação de qualidade aos telespectadores. Será?

Há uma semana José Luiz Datena estava na Band e apresentava seu “Brasil Urgente”, programa da faixa das 17h que exibe as desgraças costumeiras de sempre – mortes, crianças sob escombros, marido assassino da esposa, roubos, furtos e, quando é a feliz época das enchentes a gente conta com aquelas imagens de pessoas ilhadas, barracos rolando com terra, pedras e gente, carros arrastados, gente que caiu no córrego etc. etc.. Lá, o apresentador vociferava contra o poder público e combatia as injustiças sociais e, para isso, a emissora pagava um salário-caridade de um milhão de reais por mês. Tudo ia bem, até que ele rompe seu contrato – que duraria mais cinco anos – e anuncia que vai para a Record. De novo.

Até 2003, ele estava pelas terras do bispo Edir Macedo. Saiu de lá brigado com a emissora. Processado pela emissora, Datena tinha 18 milhões de reais pendentes em multa contratual. Para a Band está devendo 20 milhões. O dono da Igreja Universal não só bancará a multa como vai “perdoar” (tão religioso que é) a dívida de 8 anos atrás.

Datena comanda o bom, velho e saudoso “Cidade Alerta”, programa da faixa das 17h que exibe as desgraças costumeiras de sempre… E assim vai. O “Brasil Urgente” fica com o também apresentador de peso Luciano Faccioli – radicado na Record. Só que Faccioli ficou sem comandante Hamilton, fiel escudeiro de Datena que foi na frente na mudança de emissora.

A Record traz de volta mais um programa extremamente sensacionalista à grade, para se juntar com o São Paulo no Ar – apresentado por Geraldo Luís, antigo âncora do falecido Balanço Geral de São Paulo -, aos boletins de notícias entre jornais, ao Hoje em Dia, de Celso Zuccateli (uma espécie de “Sônia Abrão da manhã”, que explora as mesmas desgraças de sempre e exuma casos constantemente, de Isabela Nardoni para pior, isso entre uma e outra receita de Edu Guedes e um entrevistado do reallity show A Fazenda).

Agora é a vez da Globo promover mudanças em seu jornalismo. Sai Renato Machado do Bom Dia Brasil – será correspondente em Londres – e entra o divertido Chico Pinheiro, o qual dá a vez no SPTV a César Tralli. Segundo colunas da Folha do Estadão, o motivo é “popularizar” o Bom Dia, que estaria “elitizado” demais por conta da seriedade e postura de Renato Machado. E os números mostram o porquê: um bom número de telespectadores vem migrando para a Record – no horário matutino, tem o Fala Brasil, de estilo “popular”, mais flexível e que tem sua boa pitada de apresentar desgraças humanas de forma bem aproximada – isso inclui filmar o atropelado cheio de sangue dentro da ambulância.

Segundo o Ibope, desde 2003, quando estreou o Fala Brasil, a audiência da Record apresentou aumento de 450% nessa faixa do dia. Hoje, no Estadão, o diretor de jornalismo da Globo, Carlos Henrique Schoreder, disse que é “absurdo” pensar nas mudanças como algo a tornar o jornal “popularesco” e esse não será o objetivo da emissora carioca.

Será mesmo?

Gráfico do R7

Por que apostar na morbidade dos acontecimentos e na sua exploração exaustiva? Por que não oferecer um jornalismo de qualidade ao público? Por que as pessoas preferem o jornalismo sanguinário?

Será que são as pessoas que o preferem ou a falta de opções “limpas” e tão atraentes quanto são negadas por conta da fórmula atual que é “sucesso de audiência”?

Muita vezes, o controle remoto não basta para garantir opções de qualidade. O que falta?

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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3 respostas para Telejornais apostam em modelo “popular”

  1. heinrich disse:

    parabéns meu aluno pela brilhante reportagem.Continue assim,treinando, treinando e aperfeiçoando.abraços, Heinrich

  2. Concordo plenamente com o que você escreveu, Diego. Tornar popular é uma coisa, e faz muito sentido com as mudanças das classes sociais e tal. Mas tornar popularesco é decair, com certeza! Acho que “Cidade Alerta”, “Brasil Urgente” e programas do gênero (com apresentadores de peso, como você bem lembrou) são péssimos exemplos desse jornalismo popularesco. Vamos torcer para que o Bom Dia Brasil continue mantendo qualidade, do que não duvido.

    Abraço.

    • Disimo disse:

      É isso aí, cara. Enquanto não houver uma cobrança real da sociedade – tanto as pessoas quantos de organizações sérias – não vai haver mudança. E a coisa só tende a piorar…Pode-se dizer o que quiser com relação à Globo, mas, pelo menos no quesito sensacionalismo, devemos reconhecer que é um jornalismo “limpo”.

      Obrigado pela visita e comentário! =D

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