Empreiteiras ou jornalistas?

Olhem o ápice da liberdade de imprensa!

Do Blog do Nassif

A demissão do jornalista de A Tarde

Por Luiz Chateaubriand

(Atualizado em 9 de fevereiro, às 15h30, com informações do Política Livre)

Nassif,

Veja a (http://bahiaempauta.com.br/ ) nota de Vitor Hugo Soares no blog Bahia em Pauta e a carta aberta dos jornalistas de A Tarde publicadas ontem. Um horror.

Postado em 08-02-2011 22:08

A Tarde entrega cabeça de reporter na bandeja a empresários da construção civil e jornalistas protestam

Arquivado em ( Newsletter) por vitor em 08-02-2011 22:08

O sinal amarelo acendeu esta terça-feira na Avenida Tancredo Neves e segue piscando intensamente em alerta no endereço onde funciona o jornal A TARDE. A gota d`água , que ameaça entornar o caldeirão fervente em que se transformou ultimamente o diário quase centenário, fundado por Ernesto Simões Filho, foi a demissão do repórter de política Aguirre Peixoto, considerado um dos jovens profissionais mais promissores de redação atual.

A demissão do jornalista, que poderia ser encarada como um acidente de percurso comum na vida de qualquer atividade empresarial privada, ganha contornos graves quando se revela o motivo do corte da cabeça do profissional, que parece desnudar a ponta de um enorme iceberg submerso no Caminho das Arvores. A demissão teria ocorrido por pressão de um poderoso grupo do mercado imobiliário de Salvador, após uma série de reportagens que teria desagradado a empresários da construção civil, tradicionalmente um setor crucial entre os maiores anunciantes do jornal baiano.

Em crise de identidade há algum tempo, agravada recentemente com a perda do primeiro lugar em circulação para o Correio da Bahia – segundo dados do IVC – , A Tarde tenta reconquistar espaços perdidos, mas expõe vulnerabilidades como as reveladas hoje. Por causa das matérias, o jornal vinha sofrendo pressões e teria perdido anunciantes do setor. Alguns deles exigiram a cabeça do repórter e a receberam na bandeja, como está na Carta Aberta dos jornalistas de A Tarde, divulgada há pouco, em meio ao choque e perplexidades causados pela demissão do repórte político e, principalmente, pelo motivo da sua saída.

Bahia em Pauta publica a íntegra da Carta Aberta e segue acompanhando os desdobramentos deste fato nada alentador para o jornalismo baiano.

O sinal de alerta segue piscando na Avenida Tancredo Neves.

(Vitor Hugo Soares)

CARTA ABERTA

Hoje é um dia triste não só para nossa história pessoal, mas também para A TARDE e, principalmente, para o jornalismo da Bahia. Um dia em que A TARDE, um jornal quase centenário e que já foi o maior do Norte e Nordeste e que tinha o singelo slogan “Saiu n´A TARDE é verdade” se curvou. Cedeu a pressões econômicas difusas e demitiu um profissional exemplar.

Aguirre Peixoto teve a cabeça entregue em uma bandeja de prata a empresas do mercado imobiliário em uma tentativa de atração/reaproximação com anunciantes deste setor. Tentativa esta que pode dar certo ou não. Uma medida justificada por um suposto “erro grosseiro” não reconhecido pela Diretoria de Jornalismo, pelo Editor-Executivo, pelo Editor-Chefe, por secretários de Redação, Editor Coordenador ou editores de Política.

Uma medida, enfim, que só pode ser entendida como uma demonstração de força excessiva, intimidatória à autoridade da Direção de Jornalismo, à Coordenação de Brasil e à Editoria de Política. Uma demonstração de força desproporcional, porque forte não é aquele que age com força contra algo ou alguém mais fraco. Forte seria enfrentar, como o jornalismo de A TARDE estava enfrentando, empresários que iludidos pela promessa do lucro fácil e rápido põem em risco recursos financeiros de consumidores, o meio ambiente da cidade e que aviltam, desta forma, toda a cidadania soteropolitana.

Aguirre era o elo mais fraco da corrente. Acima dele havia editores, coordenador, secretários de redação, editor-executivo, editor-chefe, diretor de Jornalismo. Todos, em alguma medida, aprovaram a pauta, orientaram o trabalho de reportagem e autorizaram a publicação da reportagem. Isso foi feito sem irresponsabilidades, pois não foi constatado nenhum erro, muito menos um “erro grosseiro”. Se algum erro foi cometido, o erro foi o da prática do jornalismo, uma atividade cada vez mais subversiva em época em que propositadamente se misturam alhos e bugalhos para confundir, iludir, manipular a opinião publica, a sociedade, a cidadania. É de se estranhar que uma empresa que se coloca como defensora da cidadania aja de tão vil maneira contra um de seus melhores profissionais.

Recapitulando, Aguirre foi pautado para dar sequência às reportagens que fazia sobre a Tecnovia (antigo Parque Tecnológico). O fato novo era uma liminar concedida pela 10ª Vara Federal em que cassava multa aplicada ao empreendimento pelo Ibama. Era essa a pauta. No dia seguinte, a Tribuna da Bahia publicou matéria em que dizia que a liminar (decisão que pode ser revista) acabava com o processo criminal contra o empreendimento, que envolve Governo do Estado e duas poderosas construtoras. A matéria de A TARDE – dentro do padrão de qualidade que um dia fez deste um jornal de referência – ouviu o MPF e mostrou que se tratavam de dois processos distintos. O da multa, que foi cassada liminarmente e que o MPF afirmava que recorreria da decisão; e o criminal, que continuava em tramitação normal. A matéria de A TARDE estava tão certa que o MPF, posteriormente, publicou nota oficial na qual desmentia o teor da reportagem da Tribuna da Bahia (jornal que serve a interesses não republicanos, para dizer o mínimo). Essa foi a razão suficiente para o repórter ter a cabeça entregue como prêmio a possíveis anunciantes.

O interesse público? A defesa da cidadania? O histórico ético, de manchetes exclusivas, de boas e importantes reportagens? Nada disso importou a A TARDE. Importou a satisfação a um grupo de empresários, a uma, duas ou três fontes insatisfeitas. Voltamos a tempos medievais, quando fontes e órgãos insatisfeitos mandavam em A TARDE, colocavam e derrubavam profissionais. Tempo em que o jornalismo era mínimo.

“Jornalismo é oposição. O resto é balcão de secos e molhados”. Essa é uma famosa frase de Millor Fernandes. Dispensado o radicalismo dela, é de se ter em mente que Jornalismo é uma atividade que incomoda. Defender o conjunto da sociedade, seu lado mais fraco, incomoda. É preciso que a Direção de A TARDE entenda que a sustentabilidade do negócio jornal depende do seu grau de alinhamento com a sociedade civil (organizada e, principalmente, desorganizada). A força de um veículo de comunicação não está nos números de circulação ou de de anunciantes, mas nas batalhas travadas em prol dos direitos coletivos e individuais diariamente aviltados pelo bruto e burro poder econômico.

Credibilidade é um valor que se conquista um pouco a cada dia e que se perde em segundos. E, graças a ações como esta, a credibilidade de A TARDE escorre pelo ralo a incrível velocidade, assim como sua liderança, assim como seus anunciantes. Sem jornalismo, o jornal (qualquer jornal) pode sobreviver alguns anos de anúncios amigos. Mas com jornalismo, um jornal sobrevive à história

Do Política Livre

EXCLUSIVO: Demissão de Aguirre pode ter feito parte de acordo de venda de A Tarde a grupo imobiliário

O jornalista Aguirre Peixoto, demitido ontem de A Tarde, pode ter sido a primeira vítima de um processo adiantado de negociação da venda de parte do veículo ao grupo de empresários do ramo imobiliário que estaria insatisfeito com a série de reportagens produzidas pelo matutino sobre supostas construções irregulares em áreas nobres de Salvador.

A avaliação é dos próprios jornalistas de A Tarde, preocupados com os rumores de que o veículo estaria passando por sérias dificuldades financeiras, surgidos depois que veio a público a notícia de que o jornal venderia sua valiosa sede da Avenida Tancredo Neves para o grupo Odebrecht com o objetivo de pagar dívidas trabalhistas.

Acontecimentos administrativos estranhos à rotina quase centenária do jornal, como atrasos nos salários e veto à antecipação do décimo terceiro para jornalistas que saem de férias, teriam reforçado o sentimento dos profissionais de que o veículo estaria passando talvez por sua primeira grande crise financeira.

Os problemas teriam sido turbinados pela queda em circulação do veículo, pela primeira vez ultrapassado em vendas pelo Correio, da família do ex-senador ACM, segundo o Intituto de Verificação de Circulação (IVC), e o lançamento de um novo matutino do mesmo grupo na praça, de caráter popular, o “Massa”.

“A demissão de um repórter que fez seu trabalho pode não ter sido apenas uma demonstração pública de que o jornal tomou providências contra um agente interno que estava incomodando setores do mercado imobiliário, mas que seu afastamento também fez parte da negociação de venda do jornal para esse grupo”, diz um repórter de A Tarde.

Funcionário há anos da casa, ele diz não se lembrar na história do jornal de procedimento semelhante. Pelo contrário, tem na memória inúmeros casos a demonstrar que A Tarde sempre demorara a se curvar a pedidos políticos de demissão de seus funcionários, mesmo nos tempos em que enfrentou um verdadeiro cerco econômico por parte do carlismo.

Naquela época, entretanto, pondera, o jornal detinha invicto a liderança do mercado editorial baiano e não tinha tido ainda sua saúde financeira abalada por um número significativo de ações penais e trabalhistas na Justiça, a maioria das quais decorrentes de uma combinação explosiva:

A contratação de uma esdrúxula consultoria em gestão de redação, que chegou à Bahia em 2004, quando seus métodos já eram ridicularizados por todos os demais jornais do Sul do país com os quais tinha trabalhado, e da inexistência de uma política de recursos humanos que olhasse com mais profissionalismo para a equipe redacional.

O interesse manifesto pelo grupo imobiliário atingido por matérias de Aguirre, entre os quais figuram os poderosos empresários e sócios Carlos Suarez e Francisco Bastos, citados em algumas de suas reportagens, de adquirir um veículo de comunicação no Estado reforçaria a especulação de que haveria uma negociação em curso entre eles e o jornal.

O mesmo jornalista de A Tarde confirma a tese: “Há algum tempo se fala que esse grupo queria fazer um jornal e chegou a pensar em resgatar inclusive a marca Jornal da Bahia para fazer uma versão exclusivamente on line do veículo. É fato que eles desejam o poder que um meio de comunicação confere”.

O Jornal da Bahia pertenceu no passado a outro empresário muito próximo de Bastos, o advogado Carlos Barral, que saiu da cena local depois de enfrentar uma acusação da polícia baiana da qual se desvencilhou na Justiça, o que levantou suspeitas de que fora vítima de uma armação política antes das eleições do ano passado.

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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