Al-Jazeera nos EUA e a cobertura no Egito

Do Jornalismo B

TV Al-Jazeera obtém clamor dos EUA via Twitter

O artigo a seguir é uma colaboração especial de Hélio Paz*

A mim, muito incomoda quando pensam que a mídia de massa possui um papel sociotécnico maior do que aquele que ela de fato possui. Da mesma forma, também me incomoda quando minimizam a importância e o papel das mídias sociais.

A mídia de massa ainda possui o papel de orientar a vida das pessoas sobre o mundo que as cerca: o rádio, a TV, o jornal e a revista são quase onipresentes e apresentam interfaces de navegação bastante comuns há décadas.

Contudo, a digitalização permite a convivência às vezes equivalente, às vezes proporcionando um espaço maior a cada uma dessas mídias de massa a partir da interação humana via software e do compartilhamento de informações via banco de dados: a TV está no YouTube, assim como mensagens SMS (torpedos) funcionam como bilhetes.

O fato de haver uma infinidade de aplicativos e de sites de redes sociais na internet desorienta e confunde. No entanto, desde os mais populares comoOrkut, Facebook, Twitter e YouTube até outros que são importantes apenas para determinados perfis de internautas (Linked In, Flickr, Picasa, Vimeo e outros), todos possuem a qualidade de reunir pessoas por afinidade. E, de uma maneira geral, costumamos confiar mais no parente, no vizinho ou no colega de trabalho como formadores de opinião do que em pessoas estranhas. E tudo o que ouvimos de nossos pares comunitários tende a ser espalhado como um telefone sem fio para outros conhecidos de outros grupos aos quais pertencemos.

Nesse sentido, a TV catariana Al-Jazeera, que é a principal rede de emissoras de notícias em idioma árabe, tem feito um trabalho de COMPLEMENTARIDADE entre a mídia de massa (que é seu negócio principal) e as mídias sociais (isto é, divulgar a si mesma via internet com o uso do Twitter).

Segundo matéria recente publicada no Nieman Journalism Lab, um projeto da Nieman Foundation na Universidade de Havard, não apenas a cobertura sobre a crise no Egito pela Al-Jazeera tem sido postada no Twitter com chamadas e links para a matéria no site da emissora como também tem servido para estimular o consumidor de notícias estadunidense a exigir das operadoras de TV a cabo gringas a adição da Al-Jazeera em seus pacotes de canais.

O fato de os EUA serem parceiros de governos totalitários faz com que as emissoras CNN, Fox News e TNT (os três canais de alcance internacional com a maior audiência noticiosa do país) omitam ou distorçam uma série de questões acerca das tradições árabes e da real situação desses países. E o fato de os estadunidenses estarem procurando por áudio, vídeo e matérias escritas no site da Al-Jazeera (isto é, dentro de um ambiente que não possui acesso universal mas que apresenta a possibilidade de comentar, copiar, colar e editar conteúdo em rede e publicá-lo sob outras formas pelo próprio usuário, que vira também produtor de informação) significa que eles estão muito interessados na linha editorial e no teor das notícias da Al-Jazeera em inglês.

Em meados da década de 1980, quando ainda não havia internet, a audiência televisiva estadunidense clamava pelo acesso à MTV, que começou como um canal de clipes musicais – uma programação bastante desejada pelos adolescentes do país naquela época. Hoje, via Twitter, os internautas-telespectadores tem retuitado mundo afora a hashtag #demandaljazeera(solicite a Al-Jazeera) patrocinada pela própria emissora do Oriente Médio.

O coordenador de mídias sociais da referida corporação midiática, Riyaad Minty, afirmou ao repórter Justin Ellis do Nieman Journalism Lab que cerca de 50% do tráfego de dados dos sites da Al-Jazeera vem dos EUA.

Neste caso, o Egito bloqueou a internet no país para que as informações contra o governo de Hosni Mubarak não chegassem ao exterior. Todavia, a Al-Jazeera passou a distribuir panfletos com as formas alternativas de acesso às suas notícias, em um retorno ao que poderíamos chamar de um jornal bastante resumido. Outras formas de distribuir o seu conteúdo foram utilizadas, como o Scribble Live (manchetes gravadas e publicadas via telefone), entre outras.

Mas o melhor que a Al-Jazeera fez foi liberar parte do seu conteúdo sob a licença Creative Commons: isso deu aos internautas total liberdade de postar em seus blogs pelo mundo inteiro para diferentes públicos e em vários idiomas as matérias digitalizadas que, antigamente, teriam ficado restritas apenas à cobertura do sinal de rádio e TV e da logística de impressão e distribuição de jornais e revistas.

A grande guinada que as interfaces gráficas para o usuário de computadores de todos os tipos (inclusive celulares) e a circulação da informação através de bancos de dados trouxeram foi a liberdade de fugirmos do gatekeeper comprometido com religiões, políticos e patrocinadores que normalmente formam a elite que determina o que é notícia e sob qual viés o público deverá ser informado.

O importante é que há a inclusão de públicos diferentes e culturas diferentes que, há até bem pouco tempo, não tinham voz no debate planetário. Mesmo que a Al-Jazeera tenha seus interesses corporativos e também defina o que é e o que não é notícia, ela vem de uma cultura diferente que está sendo cada vez mais valorizada.

*Hélio Paz é professor da Unisinos, blogueiro twitteiro

 

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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