A periférica periferia (republicação)

Texto publicado em 01/03/2009

Seguimos de carro. Vidros escuros. Apenas proteção por causa dos raios solares, ou para evitar ver a situação mais a fundo? Passamos por ruas esburacadas (verdadeiras crateras).

O veículo segue devagar, quase parando. Em uma rua sai um homem dirgindo seu carro sem olhar para os lados, apenas olhando para frente. Rapidez = batidas = problemas sabe-se lá com quem. Mais a frente o namorado ensina sua parceira a dirigir sua motocicleta. Domingo, com ruas cheias de carros, onde inclusive passam ônibus e micro-ônibus. As pessoas andam pelo meio da rua, ignorando completamente a existência da calçada. Em locais onde não há calçada, há a reclamação. Entulhos e lixos domésticos espalhados pelas calçadas. Carros que não valem nem dois mil reais, com possantes aparelhos de som de cinco, dez mil de nossos valiosos reais. A multidão paulistana ouve o “funk” carioca. Ou ouve o “black” importado, logicamente sem saber do que se trata a letra. As redes de alta tensão cheias de cadáveres de pipas. O calor é insuportável do lado de fora. O ar-condicionado é ativado.

Homens sem camisa se misturam às mulheres com pequenos pedaços que pano que chamam shorts ou camisetas. Crianças desde já se insinuam com suas mini-roupas. Resultado: mais crianças. As pessoas ficam indiferentes, conversam à beira de suas calçadas, na frente de suas casas. Pensam somente no dia de amanhã. No trabalho de amanhã cedo. No trânsito e no ônibus lotado com seus compatriotas. Acabou o jogo de futebol na Globo. Dois homens com sua bandeira de time saem em uma moto pelas ruas gritando, buzinando e acenando. Todos os bares ligados à TV e ao futebol. As camisas de times se multiplicam. As crianças de fralda brincam sobre o asfalto, atrapalhando a passagem dos carros.

As multidões se dirigem às igrejas, às casas dos senhores. Buscam deuses que abandonaram ou sequer existiram nesse lugar. Locais há muito tempo esquecidos pela Providência Divina (e também pela previdência).

A lua sobe iluminando as casinhas de tijolos nus e expostos. Queria que Kassab, Marta, Alckmin, Serra, Lula e todos os outros políticos vivessem a vida daquelas pessoas.
Seres humanos culpados de sua miséria devido ao seu comodismo, ou pessoas sem escolha?

Nisso tudo, uma pergunta me incomoda: quantos livros há naquela localidade e quantos já foram lidos?

Será que é possível acreditar em melhorias, seja de onde venham?

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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