Drácula: humano, demasiado humano

Atenção: contém spoilers

Há algum tempo li Drácula, de Bram Stoker. Livro impressionante: história bem narrada – um envolvimento fantástico com o enredo, personagens bem amarrados. Um tanto quanto dramático, porém extremamente assustador. O autor se baseia em um personagem principal (o conde Drácula) e demoniza-o. Constrói um monstro, um ser sugador de sangue humano que é incapaz de amar, afinal de contas, deixou de ser humano.

O ator Bela Lugosi, na mais clássica adaptação de Drácula para o cinema, de 1931.

O final do livro conta com o grupo heróico que toma por missão destruir a criatura triunfando, apesar de todos os percalços. A história termina de forma aberta, com o monstro virando pó. Essa forma de encerramento suscita dúvidas com relação à eliminação do vilão: será que ele morreu por completo?

Contando com essa dúvida, surgem diversas histórias de continuidade – livros e filmes. O sobrinho-neto do autor de Drácula, Dacre Stoker, conjuntamente com Ian Holt, escreve Drácula: o morto vivo – A sequência do clássico de Bram Stoker. A aposta inicial não é no conteúdo da continuação, mas sim no sobrenome Stoker e no apreço pelo livro inicial.

A obra relata como segue a vida do grupo que supostamente eliminou Drácula. Ao contrário do livro de Bram, não há nada de romance: a história é um mata-mata generalizado e cruel (no final, não sobra um daqueles que lutaram contra Drácula, pois todos têm uma morte dolorosa). O enredo se mostra confuso em sua narrativa. São planos em demasia, em um “vem e vai” desnecessário.

Além das desgraças com as personagens, o livro apela para a sexualidade, descrevendo em detalhes atos sexuais e orgias, tudo banhado a sangue fresco. Mais púdico, Bram Stoker, apenas menciona, nas entrelinhas, as “relações íntimas” que Drácula tem com Mina Harker (a protagonista).

Mas, a pior parte é a extrema humanização dada ao “príncipe das trevas”. Com a inserção de uma vampira mais malévola do que Drácula (que não morreu, afinal), condessa Elizabeth Bathory, os autores insistem em humanizar o conde. Ele passa a ser a vítima, pois segundo o livro, estava caçando Bathory quando se inicia a perseguição do livro de Bram Stoker. A lógica da história original é subvertida.

Príncipe Vlad III, conhecido como o empalador e a condessa Elizabeth Bathory, que gostava de orgias regadas a muito sangue

Apesar desses fatos, é ressaltado um lado histórico que não aparece no Drácula inicial. No decorrer da obra e no pósfacio, são mostrados os personagens históricos Príncipe Vlad (Drácula) e Elizabeth Bathory: ambos existiram e entraram para a História por sua crueldade e sede de sangue. O caso de Jack, o estripador, conhecido assassino em Londres, que matou prostitutas e as esquartejou, é colocado como uma das peças-chave do enredo.

Com uma leitura não fluida e alguns momentos de adrenalina, a continuação de Drácula não convence. São 413 páginas de muito esforço para concluir a leitura. No Submarino, você compra por R$ 9,90. Vale à pena guardar os trocados para comprar entradas de cinema ou teatro.

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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