Festim mais que diabólico [Texto excepcional]

É possível cometer o crime perfeito?

Alfred Hitchcock, cineasta inglês falecido em 1980, ficou imortalizado pelo clássico Psicose (Psycho, 1960). Porém, a gama de filmes dirigidas por ele é enorme – entre filmes coloridos e preto e branco são 53 obras. Destaco o suspense Festim Diabólico (Rope, 1948). Nessa história, dois amigos matam um colega de faculdade só para provarem que podem cometer o crime perfeito. Baseados na ideia de eliminar “vidas inferiores”, estrangulam o jovem e ocultam seu corpo em um baú. Avançando todos os limites da sanidade, a arca onde está o cadáver é usada como mesa para um jantar oferecido pelos rapazes à saúde do falecido, inclusive estarão presentes na ocasião familiares, amigos e a noiva do assassinado. Resultado, ao final da festa, um dos convidados, que já estava desconfiado com o sumiço do rapaz (pois este deveria ter ido ao jantar), decifra o crime por um detalhe: o chapéu do morto.

Que loucura, não? Pois é, mas a busca por cometer o crime perfeito não é exclusividade das obras cinematográficas. Ultimamente, temos visto com frequência pessoas pensando em escapar impunes de barbaridades cometidas por elas, sejam estudantes de faculdade, pai e madrasta ou jogadores de futebol.

Bruno do Flamengo. Ficará afamado internacionalmente, só que de forma negativa

O mais recente de nossos festins é diabólico e futebolístico. Inúmeros indícios apontam para a culpa de Bruno, goleiro do Flamengo, e de seu amigo, conhecido pela alcunha de “Macarrão” no caso do desaparecimento da ex-namorada (ou amante) do atleta. Um jogador que poderia ir (segundo o jornal italiano Corriere Della Sera) para o Milan.  Uma oportunidade de fazer fortuna em campos internacionais e ficar mundialmente conhecido. Entretanto, o fato descortinado à frente do público é que Bruno será internacionalmente conhecido, só que ao invés de seus méritos futebolísticos prevalecerá seu feito hediondo: envolver-se com gente deplorável e cometer uma barbaridade.

Ao contrário dos jovens de Hitchcock, sutileza não fez parte da ação. Sangue em seu próprio carro e parentes envolvidos. Esses são vestígios que fundamentam as acusações contra o goleiro e sua turma. Claro que, ainda mais no Jornalismo, se deve ter o máximo de cuidado ao tratar da possibilidade de um crime para não cometer equívocos e realizar julgamentos (afinal, quem julga é a Justiça, e não os meios de comunicação). Dada a dimensão do acontecimento, a mídia está fazendo uma cobertura razoável – só não  fazem parte dessa mídia os veículos amantes do jornalismo “sensacionalista” (no sentido de que exploram de forma desmedida as desgraças de natureza humana).

E a cada dia que passa, “festins” como esse ficam mais comuns. Com exceção de alguns políticos de nossa grande política nacional, é impossível cometer um crime perfeito – não deixar vestígios – pois a tecnologia evoluiu, os espectadores e a cobertura midiática evoluiram e a Justiça evoluiu. Portanto, pense bem na hora de agir em qualquer circunstância porque se você esconder o chapéu no armário, pode ter caído um fio de cabelo que você não viu, mas que certamente um perito achou e saiba: vai passar no Jornal Nacional.

 

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Sobre Diego Moura

Jornalista com experiência em comunicação corporativa na área de mineração e assessoria de imprensa em organização pública. Um dos autores do livro-reportagem "Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura". Atualmente, tem interesse em trabalhos em redação e cobertura jornalística. É autor do blog "Textos para pensar".
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