Fulaninha

Hoje, enquanto eu e meus pensamentos nos espremíamos no trem na volta pra casa, uma fulana entrou na minha cabeça e não saiu mais de lá. Ou melhor, uma fulaninha. Para evitar problemas domésticos, me explico.

Na minha frente, uma mulher tentava se equilibrar na locomotiva suada das seis e meia da tarde. Com uma das mãos segurava um celular, com a outra grudava na esgorreguenta barra metálica. Unhas bem feitas, esmalte clarinho, prezava por uma boa aparência. A saia longa, de estampas de floresta, ornava com uma blusa preta de alça, que lhe daria movimento, em outro contexto. A cabeleira artificialmente loira se esparramava até o meio das costas. Do seu rosto pude observar apenas que tinha quase nenhuma ruga no canto do olho direito e um nariz afilado. Parecia bem jovem, vamos deduzir uns 30 e poucos anos.

Ver mais do que isso seria desafiar a gravidade de uma lata de sardinhas em movimento. Como minha curiosidade tem requintes de impertinência, estiquei o pescoço e vi algo mais interessante. Mal guardava o celular, ela pegava o aparelho novamente. Conversava pelo Whatsapp. Captei que a senha de desbloqueio poderia ser 7433. O papo silencioso era com o Rafael, moço de barba bem feita e óculos escuros, simpático na foto do contato. Ela agendava uma carona com o rapaz.

– Você me pega antes do ponto?, teclou.

Guardou o celular. Dois segundos depois, pegou o telefone.

– vou tentar
Kkkkkk
depende do transito

– vai tentar o que?
Hoje voce sai comigo e não com aquela fulaninha.

Coitada da fulaninha! Cinco minutos me bastaram para saber mais do Rafael do que ela (namorada, esposa, amante?). De toda a forma, vim pensando no drama do qual ela provavelmente não sabe que faz parte. Desejei, do fundo do meu coração, que ela estivesse no Whatsapp combinando subir um belo par de chifres na cabeça do fulaninho naquele momento.

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Organização critica desigualdade na futura vila dos atletas olímpicos

RioOnWatch classificou empreendimento que virará bairro ao fim dos jogos como “um novo modelo de exclusividade urbana e isolamento”

Por Diego Moura

Na sala escura, a voz de Fernanda Montenegro estronda enquanto na tela vão se desenhando paisagens típicas do Rio de Janeiro. As imagens exibem uma pujante Barra da Tijuca, em profunda transformação ao longo dos anos. No vídeo mostrado no estande de corretagem e em publicidades televisivas, a atriz global aluga sua voz às empresas Carvalho Hosken e Odebrecht, responsáveis por construir a Vila dos Atletas das Olimpíadas do Rio 2016. Após os Jogos, em agosto, no mês de março de 2017, o bairro Ilha Pura nascerá com 31 prédios que, somados, correspondem a 3.600 apartamentos. O mais barato dos primeiros lançamentos – os edifícios Dalí, Picasso, Miró e Gaudí – custa pouco mais de R$ 700 mil; o mais caro, quase 2 milhões. Mas nem todos poderão se beneficiar deles.

“Enquanto a Ilha Pura pode se gabar por operar com certo nível de sustentabilidade ambiental, há uma gritante desconsideração da sustentabilidade social da região”, acusa a publicação da organização não governamental RioOnWatch. O site produz conteúdo em inglês sobre as comunidades carentes do Rio de Janeiro, como uma vitrine para os problemas das favelas cariocas sob holofote do mundo devido aos Jogos Olímpicos.

Apesar de as empresas envolvidas no projeto afirmarem que “não houve e nem haverá desapropriação na Ilha Pura”, as comunidades temem pelo futuro. “Ao apresentar-se como um desenvolvimento da elite ligada ao legado olímpico da cidade, a Ilha Pura visa atrair compradores que desejam experimentar o ‘novo’ Rio que está sendo construído na área. Com isso, as comunidades de baixa renda próximas, como Vila Autódromo e Vila União de Curicica, estão sob ameaça de despejo”, argumenta a ONG.

O urbanista e arquiteto da FAU-UFRJ Pedro Jorgensen Jr, especializado em Políticas do Solo Urbano pelo Lincoln Institute of Land Policy, classifica as medidas urbanísticas adotadas no Rio de Janeiro, para as Olimpíadas de 2016, como projetos de “enclave” ou de exceção. “As Olimpíadas foram usadas para recolocar a Barra da Tijuca no centro das ações urbanísticas. Os enclaves são projetos que movem muito dinheiro, tanto na ponta de quem produz quanto na ponta de quem consome e têm interesses claros ou óbvios: imobiliário, internacional, seguradoras”, explica. “O plano urbanístico é um plano que não está escrito em lugar nenhum.”

Segundo ele, o fato de haver três linhas de BRT (ônibus rápidos que circulam em corredores exclusivos) e uma de metrô em direção à Barra da Tijuca visa atender apenas ao interesse de levar mão de obra da zona norte do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense para trabalhar no bairro de alto padrão. Enquanto isso, o centro fica estrangulado e a região do Porto Maravilha, que caracteriza uma operação urbana de revitalização, terá apenas um veículo leve sobre trilhos (VLT).

Sustentabilidade. O Ilha Pura é o primeiro empreendimento certificado pelo LEED-ND, cujo objetivo é “incentivar a transformação dos projetos, obra e operação das edificações, sempre com foco na sustentabilidade de suas atuações”. De 110 pontos, a obra recebeu 47, apenas sete acima do mínimo necessário para qualificação. Além disso, a avaliação da sustentabilidade não se restringe às características verdes do projeto, já que índices sociais também contam. O futuro bairro, porém, obteve zero com relação à inclusão de comunidades de rendas diversas e engajamento da comunidade.

O consórcio responsável pela execução da obra alega que, por ser um empreendimento privado, não está sujeito a pagamento de contrapartidas. Jorgensen critica esse fato. “No Rio de Janeiro nunca houve tradição em fazer essa cobrança. Essa possibilidade está prevista no Estatuto da Cidade”, afirma. Entretanto, de acordo com o documento, “a outorga onerosa do direito de construir consiste na possibilidade de o Município estabelecer relação entre a área edificável e a área do terreno, a partir da qual a autorização para construir passaria a ser concedida de forma onerosa”. O Estatuto não prevê cobranças por eventuais impactos da obra no entorno.

“Atualmente, a obra gera 7 mil empregos diretos e desenvolve o programa de qualificação profissional continuada Acreditar, que visa capacitar e proporcionar a jovens e adultos a oportunidade de emprego”, diz a Odebrecht, em nota. E a RioOnWatch lamenta: “Parece que as pessoas sendo removidas das favelas que cercam o condomínio só participarão deste espaço como a mão de obra de condomínios fechados como Ilha Pura”.

Matéria produzida como exercício para o 25o Curso Estado de Jornalismo a partir de viagem patrocinada pela Odebrecht para conhecer as obras olímpicas no Rio de Janeiro.

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O único mal irremediável

Por Diego Moura

A morte está sempre observando a todos. Fica num cantinho escuro, escondida, à espreita. Quando ela age nunca estamos preparados, por mais que assim pensemos.

É como nos diz o brilhante e recém-saído Ariano Suassuna através dos lábios de Chicó, em seu Auto da Compadecida:

Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre.

Tudo o que é vivo morre. Mais uma das tantas obviedades que nos cercam e só pesam quando a mão inabalável de Deus, do Destino, na Natureza (ou seja lá o que você acredite) desaba sobre nossas cabeças. Ou de cabeças próximas a nós. 

Se há algo de positivo nesse fim inevitável de todas as coisas vivas é o fato de lembrarmos da vida. O tempo corre. O tempo está contra nós. O relojoeiro Ademir, entrevistado no belíssimo documentário “Contra Tempos” [fim do post, vale muito assistir], produzido por algumas sensíveis colegas jornalistas, nos alerta:

– O ser humano nasce com o cronômetro regressivo, onde você aperta e ele vai regredindo. Quando zerar, acabou seu tempo. A gente tem uma sensação de “ah, parabéns pra você, mais um ano de vida”, mas não é. Na verdade, é um processo de menos um ano de vida. (…)IMG_2526 As pessoas existem, mas não vivem. 

Prepare-se, porque você lerá mais obviedades – mais ou menos óbvias com o sabor do tempo.

Temos que parar de negligenciar as pessoas e dar mais valor aos encontros presenciais, aos almoços em família, a qualquer reunião, por mais besta e simples que pareça.

Reduzir aquela briga, por uma razão que você já nem lembra mais, a nada.

Celebrar as presenças daqueles que amamos.

Seu Zé é o vô da Laila, minha namorada. Eu conheci o Seu Zé, mas não tão bem quanto seus familiares. Evidentemente, porque cheguei bem depois. Mas sei que era um homem forte, batalhador. Lutava todos os dias. Mas tem vezes que o cansaço chega sorrateiro, inevitável. Era uma alma sensível, dessas que choram ao ouvir uma música bem cantada e bem tocada na viola caipira.

Hoje Seu Zé descansou pela última vez. Sei que uma viola chora baixinho em algum lugar.

 

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Encontro mágico com um pescador de esperanças

Por Diego Moura

Afundava os pés na areia macia e fria. Naquela praia nublada e quase deserta seus pensamentos corriam soltos, como os pequenos barcos de pesca que levantavam e baixavam ao sabor das ondas. Acabara de ter um encontro mágico com um pescador de camarões.

O homem baixinho, atarracado e cheio de músculos e tatuagens – produtos de tempos marítimos imemoriais – atracava o pequeno bote naquela mesma paragem, alguns quilômetros atrás, quando o sujeito pensativo se aproximou. Trocaram alguns dedos de prosa sobre temas supérfluos. Aquela mesma conversa protocolar de elevador, só que transferida para a beira mar.

Vendo que ameaçava garoar, o pescador convidou o andarilho para entrar na sua pequena barraca. Diante da recusa de seu interlocutor, viu que os pensamentos pareciam querer saltar dos miolos do sujeito e sair correndo pela praia. “O senhor me permite dar um conselho?” E, sem esperar pela resposta, prosseguiu. “Sabe, a gente tem que controlar os pensamentos da gente. Eles são tipo esse barco aqui”, bateu na lateral onde se lia Profeta do amanhecer. “A gente tem que deixar eles bem amarradinhos aqui, ó, na nossa cabeça. Só pode soltar eles se a gente tiver no controle. Se não, aí vira uma doideira só. Você vai, vai, vai e, quando se dá conta, tá só você e o barco, num mundaréu de água salgada: sem remo, sem rumo. Daí pra voltar é difícil. Mas se a gente desamarra com cuidado, empurra pra água e sabe pra onde tá indo, aí a pesca pode ser das boas. Mas se o senhor não sabe pra onde quer ir, até decidir, é melhor ficar em terra firme. Desculpa pela intromissão e pela ligeireza, mas eu tenho que descascar esse camarão todinho aqui. Dá licença”, completou e saiu em direção à cabana, puxando uma das pernas, ligeiramente coxo.

SONY DSCNão acreditava nessas coisas místicas, que seus parentes insistiam em apontar: cruzes, búzios, águas milagrosas. Tudo não passava de uma grande coincidência, pensava. Aquele homem e seu conselho apareceram ali por uma simples e pura coincidência de fatores. “Hora certa, lugar certo”, disse, tentando se convencer do contrário. Uma pequena ideia martelava sua cabeça. Notou uma tempestade vinda de suas ideias e tratou de amarrar bem os barcos, agitados pela marolinha que se intensificava.

O céu nublava mais. Estava chegando à ponta da praia. Dali em frente um rio desembocava no mar. Cruzando o rio, surgia densa mata cortada por uma trilha, imperceptível entre as pedras e folhagens verde-musgo. Já tinha perdido a conta das horas caminhadas até ali. Consultara os bolsos da bermuda e do moletom: saíra sem celular, sem relógio. Nu.

Optou por percorrer os últimos cem metros que separavam o lugar onde parara do rio. “Meia volta, e pra casa.” Quando se aproximou da areia molenga viu na água uma garrafa de tubaína, dessas que não fabricam mais hoje em dia. Pensou em pegá-la, mas a ideia de molhar a bermuda com o friozinho que começava a fazer no fim de tarde o arrepiou. Consumiu cinco minutos até o rio. Mais cinco para voltar ao ponto onde avistara a garrafa. Lá estava ela repousando fora da água. Aproximou-se devagar, agachou e, com um pulo, pegou o objeto e escapou de uma onda gelada que se formara de surpresa.

O vidro era translúcido, amarronzado não sabia se pelo tempo. Ergueu a garrafa e olhou atentamente para o vidro. O resto de luz da praia atravessou a garrafa, mas esbarrou em uma forma cuidadosamente enrolada.

Extraiu a rolha e puxou o papel. Amarrado com uma fita de cetim trazia um perfume adocicado, que cheirava a maresia.

Olá, minha amiga ou meu amigo desconhecida (o)

Eu quase desisti de escrever isso aqui, porque pensei (1) que ninguém ia ler (2) ou estava muito ruim. Enfim, decidi enfiar meia dúzia de palavras nessa garrafa e jogar por aí pra ver se alguém aproveita. Elas estavam crescidas e maduras, apanhei do topo, mas não tinha para quem presentear. Lá se foram elas. A gente sempre acha as palavras leves ou pesadas demais. Fiquei com medo de a garrafa afundar. Mas se você está lendo isso, acho que ela não afundou. Pois bem. Acordei pensando no passado. Frases e fatos que a gente pensa que estão lá no fundo, mortos, de repente voltam e assombram todos nós. Todos. Nós e os que estão perto de nós. Às vezes as borbulhas são tão grandes que ficam lá no fundo, inchando, inchando, até que emergem e fazem estragos, barulhos, cortam, machucam. Mas isso, geralmente, sara. Não se preocupe. Não importa o quão graves são as memórias que levantam de suas pretensas tumbas: elas são pequenas perto do amor de um pai, de uma mãe, de um irmão, de um amor.

Você já teve um aquário com muitos peixes? O que acontece quando muito tempo passa? A água fica turva, a bomba não dá mais conta de remover a sujeira. O vidro começa a ficar amarelado, cheio de grudes. Até que uma hora a sobrevivência ali é impossível. Se você sacudir as pedras do fundo, toda aquela sujeira acumulada vai sujar ainda mais a água. O aspecto fica lamentável. Aparentemente, a solução é jogar tudo fora e esquecer. Mas o aquário é tão bonito. Vida acontece ali dentro, oras! Então, você reúne todas as suas forças e limpa. Transfere os pequenos peixes para uma morada provisória, reflete um pouco e manda embora a água imunda e seus resquícios de sujeira. Esfrega bem as paredes, sua muito. Mas, enfim, bota água nova, volta os peixes e segue a vida, admirando aquele pequeno universo envidraçado, cheio de esperanças próprias.

Enquanto você achar que o esforço de esquecer a água suja vale a pena e tiver em mente que sua vida está integrada àquele pequeno universo, vital para você, essas borbulhas de passado vão incomodar vez ou outra. Depois, você percebe que não são nada além de grãos feitos para serem esquecidos. Não existe aquário 100% limpo 100% do tempo. O importante é não esquecer de sempre torná-lo limpo, cheio de possibilidades. Quanto menos tempo você levar para trocar os filtros da existência, menos você terá que esquecer. É assim. Mas isso é apenas a voz de uma garrafa anônima. Fique com Deus.

Lá longe, quase em alto mar, certo homem atarracado e cheio de tatuagens incompreensíveis lançava garrafas de tubaína ao mar. Enchia com esperanças e palavras de conforto que, esperava, não morressem à beira mar. Que fossem profetizados novos amanheceres. Todos os dias.

 

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A terrível sina dos homens e das mulheres-placa

Por Diego Moura

Imagine trabalhar das nove da manhã às cinco e meia da tarde, com uma hora de almoço e 15 minutos de café perto das quatro horas. E o detalhe: apenas nos finais de semana e perto de casa! Parece uma vaga dos sonhos, não? É, só parece.

E se eu te contar que você vai ganhar apenas quarenta reais por cada um dos dois dias de trabalho? E se o empregador disser que você tem que ficar em pé durante todo o “expediente”? Ah, e nem mencionei o local de trabalho: uma calçada qualquer na qual a árvore, esse luxo folhado, vem ou não de acordo com a Roda da Fortuna.

Esse é o modo de funcionamento de homens e mulheres-placa, aqueles que indicam os caminhos para empreendimentos imobiliários à venda. As construtoras pagam uma mixaria para que homens e mulheres desesperados por algum dinheiro (desempregados, aposentados ou quase) passem o dia sob sol escaldante segurando um letreiro simpático de áreas gourmet, suítes e nenhum senso de humanidade.

Até 2007, as corporações tinham, em geral, duas opções para divulgar seus apartamentos e casas nas ruas paulistanas. A primeira previa distribuição de panfletos nos semáforos com informações e endereços dos imóveis corretados; a segunda, a compra de outdoors, aqueles grandes painéis eletrônicos ou de madeira que contribuíam para o que alguns chamavam de “caos visual” na cidade.

Pois bem, Gilberto Kassab sancionou a Lei Cidade Limpa. Pela nova regra, ficaram banidos os grandes painéis e demais formas de publicidade em áreas públicas, e todo e qualquer letreiro comercial na Capital fica sujeito a especificações de tamanho que não podem passar de 1,5 m². Além disso, o acréscimo da nova lei aos quadros do município também proibiu a distribuição de panfletos publicitários.

Sem poder burlar a fiscalização dos letreiros, surgem algumas opções. A mais cara foi passar a distribuir, em lugar de panfletos, pseudojornais gratuitos. Em formato tabloide, são colocadas notícias sobre como é bom viver em determinado bairro e, plantados ali no meio, os anúncios. E a publicação vem como responsabilidade de um jornalista com MTb e tudo.

A outra opção encontrada vem diretamente da lei, que proíbe a colocação de anúncios em “ruas, parques, praças, postes, torres, viadutos, túneis, faixas acopladas à sinalização de trânsito, laterais de prédios sem janelas e topos de edifícios”, mas não fala nada sobre afixar placas em pessoas. Ideia genial. Mais econômico que jornais, panfletos e anúncios na TV.

E é aí que chegamos ao recifense Ivanildo, separado há 18 anos e morador de São Paulo há 41. “A gente não pode sentar, nem se escorar na parede, porque tem um fiscal que passa aí olhando”, conta o senhor cujas rugas denunciam uma idade superior aos seus quase 65 anos. “Tô aqui pra não ficar parado, sabe? Moro de favor aqui perto.” Sob o sol de 31ºC das dez e meia da manhã, não precisei forçar uma conversa. Suas palavras saíram em torrente, como se há muito quisesse desabafar sobre sua história, com um sotaque pernambucano firme levemente corroído pelos anos paulistanos. Homem e sotaque resistem.

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Seu Ivanildo

E há quanto tempo ele está na vida de homem placa? “Tem seis meses, mais ou menos, que eu venho aqui todo final de semana”, diz. E além da regra a qual proíbe sentar e, mesmo que por instantes, escorar-se na parede ocorre o problema da comida. “A gente que tem que trazer almoço e tudo. Eles não dão nada não.”

Com o rosto lavado de suor, seu Ivanildo explica que quer voltar ao ramo no qual trabalhou a vida toda: a reciclagem. “Se você trabalhar bem, fizer tudo certo, você tira limpo uns oito ou nove mil reais”, explica. Só não está “estabilizado”, porque fez uma sociedade com um parente baiano e levou uma rasteira feia. Com um leve ressentimento na voz, profetiza sobre o segmento. “A reciclagem é o futuro”, exclama. “As pessoas não veem, porque é lixo. É dinheiro que tá por aí jogado.” Nisso, mostra sua garrafa de Coca Cola cheia de água, descansando sob os galhos de um ipê amarelo. “Tá vendo isso aqui? – aponta para a tampinha vermelha – Isso é ‘pp’, eles compram! A garrafa PET também. O quilo deve estar um real. E você vai juntando: cata de segunda, terça, quinta, sábado…e por aí vai. Se você tiver alguém trabalhando sério com você, você faz muito dinheiro. E é tudo seu, sem descontar INSS, nem nada.”

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Os reflexos de uma vida toda voltada ao trabalho são parcialmente reconhecidos pelo Estado: labuta desde cedo, mas com registro em carteira de apenas 28 anos. Portanto, ainda tem um pequeno chão para a aposentadoria.

“Mas tudo se ajeita”, sentencia com fé. Exilado de sua paixão, o homem ainda precisará ficar de guarda por pelo menos mais seis horas naquele dia para receber miseravelmente por um amanhã cheio de incertezas. Porque é assim que funcionam as pontas da corda: enquanto os “homens-gravata” tudo recebem por seu “pioneirismo empreendedor, liberdade e vontade de trabalhar”, aos homens e mulheres placa é reservado o seguinte pensamento:

– Que comam brioches, oras. Os que trouxerem os seus, é claro. Não cheguei até aqui para sustentar desocupado.

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O tempo e o resto

Por Diego Moura

Nós estamos matando nosso tempo. E queremos comprar mais! Temos a ilusão de que com alguns pedaços de papel pintado podemos adquirir bens e valores e mercadorias e…tempo. Foi com surpresa e interesse que esbarrei em uma pesquisa do Ibope Inteligência sobre a percepção do tempo pelo brasileiro (você pode lê-la completa aqui).

BRASILEIROS PAGARIAM R$50 POR UMA HORA A MAIS NO DIA.

Esse valor sobe para oitenta e cinco reais se for uma hora a mais em um dia de folga. Mudamos os calendários; as agendas deste ano já não servem mais. Nasce a esperança de que mais horas para todos reflitam em igualdade, serenidade, paz, possibilidade de crescer, sair do buraco.

E assim começaria a venda de horas. Bancos, agências de investimento e corretoras não tardariam a tomar esse filão para si. Seriam cobradas taxas pela hora – inteira, fracionada, mista, duas horas pelo preço de uma e meia. Os supermercados passariam a vender nos caixas cartões estilo “raspadinha”. Loterias sorteariam prêmios contabilizados nesta moeda paralela chamada tempo: o acertador das seis dezenas leva ‘x’ dias; cinco dezenas conquistam algumas horas; e a quadra, para não perdermos o costume, alguns minutos.

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Foto: Diego Moura

A moda de negociar com horas chegaria às grandes empresas. Já estou vendo os “líderes” galgando balcões – ou, mais provavelmente, designando um “colaborador” – para comprar algumas horas. Tudo pelo bem do time, da equipe; “temos de vestir a camisa, vocês sabem”; “as metas estão ali, esperando para serem batidas, por isso tomei a liberdade de comprar algumas horas a mais para os senhores”; “a organização comprou mais cinco conjuntos de sessenta minutos, ou seja, o dia de vocês agora tem 29 horas. Dessas, quatro são para o trabalho e uma para o lazer. O abatimento no holerite será baixo, em torno de 3%”. As Letras do Tesouro Nacional e também ações seriam negociadas com opções para horas. Uma taxa SELIC horária e, claro, uma inflação para as horas.

O ambiente acadêmico escolar teria seu quinhão. Alunos, em troca de mais tempo para entregar trabalhos, deslizariam malas pretas pelas mesas e salas de professores para comprar horas dos docentes. A universidade venderia (ou descontaria do ordenado) aos mestres retardatários mais horas em suas correções de provas e trabalhos; quem fizer mais rapidamente o serviço ganha bônus no fim do ano – em horas, claro.

Com os cidadãos optando por pagar os tributos em horas ou dinheiro, a Receita faria a festa. Gente caindo na malha fina por inconsistências em minutos, segundos. Tudo com recibo.

Um mercado sem escrúpulos, onde a hora viraria commodity. Minutos por minutos, sem valores agregados. Virão, enfim, as horas tipo exportação. O horário que não presta, insalubre, aquele que ninguém quer, ficará para o país; os melhores conjuntos serão exportados, servirão mesas europeias, chinesas. A hora do chá vale mais do que a hora do rush.

Haverá a hora de grife, com etiquetas douradas; essas horas servirão às passarelas de Milão. E não tardará o momento em que comprar e vender horas anteriormente inexistentes será pouco; corporações roubarão horas dos pobres. Uns terão dias de 48 horas, em que poderão jogar golfe e cultivar cédulas e dias na bolsa de valores com tranquilidade; outros terão dias com três, quatro horas. Terão de vendê-las a preço de minuto, barganhá-las, serão, na acepção do termo, escravos do relógio – e pelo relógio. Traficantes de horas; horas ilegais; multas cobradas pela Justiça serão em horas; as vaquinhas, também. Policiais são subornados com vales-hora. Profissionais do sexo, cuja hora vale hora, merecerão uma parte dos lucros.

A única igualdade que ainda reinava entre os seres humanos – dias de 24 horas para todos, independentemente de suas contas bancárias – se foi. E com ela um futuro que parecia esperançoso finalmente foi sepultado nas areias do tempo.

E o resto? Bem, o resto é resto.

Desculpe, mas o tempo me é escasso para mencioná-lo.

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Não há borboleta alguma [parte 3]

[Caso não tenha lido, veja as partes um e dois aqui]

Por Diego Moura

As primeiras notas a atingiram em cheio. Seu peito ardeu com um fogo que queimara ali pela última vez em… Quando mesmo? Não lembrou. De repente as lembranças explodiram.

Tinha catorze anos. Estava de volta ao terreno baldio perto de sua casa. Sim, sim! Era isso. Estava ao lado de um menino ligeiramente mais velho. Os dois, deitados na grama, ouviam os trovões ao longe. Ignoravam tanto quanto o chamado de suas mães.

– Você jura que nunca vai me abandonar?

– Juro.

Ele abriu uma caixinha dessas que dão na joalheria e tirou um pequeno anel de casca de… Não recordava o material. O piano prosseguia mais alto, rápido e furioso. Cada pancada na tecla era uma martelada no passado.

Fora isso. Ganhara o anel e uma promessa de nunca separarem-se. À noite, o pai bêbado veio. Não suportou mais uma noite de gritaria, brigas e tanta tristeza. Na madrugada, fugiu de casa. A cabeça era só confusão. Uma gritaria de ofensas, injúrias, perjúrios, blasfêmias. A risada ébria do pai misturada aos insultos atirados contra a mãe. Deixou tudo para trás, inclusive o anel e sua promessa. Não queria nada da antiga vida. Nunca quis. E eis que aquele fantasma surge. Brota com a chuva e navegando pela música triste cobra as promessas feitas e não cumpridas. A vida que poderia ter sido. O sonho que não virou. O barco que nunca deixou o porto.

Sentiu o rosto queimar. Estava chorando. As lágrimas grossas corriam sua face e pingavam na toalha encardida. Uma pequena poça já de acumulava no branco de outrora. Ele estava enlouquecido. Espancava o piano com sua dor. Seu peito parecia que ia estourar. Não, não choraria. Não desta vez. Desde a separação chorava dia sim, noite sim. Os olhos fundos já tinham cansado. Seu coração agora era pedra e do desfiladeiro rolava sobre todos.

A chuva aumentara. Fazia um dueto esquizofrênico com o piano. Ela pensava em ir lá, explicar-se. Mas que diria ele? Jogaria em sua cara o abandono, tal qual fazia no piano. De súbito, a música parou. Apenas a água que escorria do céu fazia barulho. Respiração suspensa. Tempo suspenso. Tudo parou no ar.

Naquele momento, o coração da pobre moça, tão desventurada desde então, pulava. As batidas eram quase visíveis através do tecido semimolhado. Suas pernas não tinham força e mal conseguia erguer a cabeça para os lados do piano. Sentia-se como se houvesse cavado a terra com as próprias unhas para depositar o passado. Mas aquele fardo que lhe pesava era apenas o fantasma, um corpo insepulto. Não teve coragem de dizer palavra.

Após cinco minutos de silêncio e olhar firme na direção um do outro, ela levantou. Ele seguiu o exemplo. A moça decidira falar-lhe. Não teve tempo.

O homem sacou uma nota que cobria suas despesas no pequeno café e arremessou no balcão. Correu para a porta em disparada e agarrou uma valise oculta em baixo de sua mesa. Abriu a porta de supetão e caiu na rua, com água nos calcanhares. Correu e virou a primeira esquina na direção do aeroporto.

A moça tinha os olhos injetados de pânico. Pensou em correr atrás daquele que amara mais do que a própria vida no alto de seus quatorze anos. Mas com que propósito faria isso?

Olhou para a porta e viu um objeto que cintilava levemente em meio à poeira do chão. Foi até lá, abaixou-se e pegou o pequeno artefato redondo. Um anel de casca. Lágrimas gêmeas brotaram grossas e despencaram pelas maçãs pálidas de sua face. Deixou-se cair na cadeira. O homem do balcão que pareceu perceber alguma coisa muito estranha saiu de trás de seus afazeres e fo lá.

– Aconteceu alguma coisa entre a senhora e o padre?

– Padre?!

Seu choque não podia ser maior. A punição por seus atos foi saber que aquele com o qual conjugara planos e esperanças largara uma vida que poderia ter sido deles e se voltou completamente aos desígnios da Santa Igreja.

– Sim, padre – respondeu o dono do café sem demonstrar emoção. Ele parte hoje para um país que ignoro. Sei que é umas das missões eclesiásticas que o Vaticano conduz no continente africano.

O avião rugiu. As turbinas roncavam forte ao seu lado. Contemplava uma cidade vazia e chorosa pela força dos céus, quando uma borboleta apareceu na pequena janela redonda.

– Sim – alegrou-se por um instante e enxugando uma lágrima teimosa com o pequeno lenço bordado – sim, existem borboletas ainda. Resta saber procurar nos lugares certos.

{Fim da terceira e última parte} 

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